Sofrimento animal e a linha tênue entre o que é ético e o que é conveniente para nós humanos

Antes de tudo desculpem pelo texto grande! Comecei a escrevê-lo com o foco na questão da Santa Cruz (contada no parágrafo abaixo) e depois achei melhor aproveitar o tema para expandir as discussões sobre ele. Então tenham paciência e leiam até o fim!

Em maio, uma notícia me chamou a atenção: a empresa americana Santa Cruz Biotech (http://www.scbt.com/) foi multada em 3,5 bilhões de dólares acusada de violações dos direitos dos animais [1,2]. Quem não está acostumado com certas áreas de pesquisa deve estar se perguntando: o que uma empresa de biotecnologia tem a ver com violação de direitos dos animais? A resposta neste caso está na produção de anticorpos. Como parte do sistema imunológico, os anticorpos são moléculas cuja função é reconhecer e se ligar a alvos específicos, tornando estes alvos então neutralizados e/ou marcados para etapas posteriores da resposta imune. A alta especificidade das porções variáveis dos anticorpos aliada a suas porções conservadas os tornam bastante úteis em pesquisa, já que alvos específicos podem ser reconhecidos pela primeira e os anticorpos contra este alvo especifico são reconhecidos pela segunda (quem estiver interessado em maiores detalhes pode dar uma olhada na Figura 1 abaixo).

Picture1

Figura 1: Em (a) uma representação esquemática de um anticorpo mostrando suas duas porções variáveis (variable region) responsáveis pela detecção do antígeno e sua porção conservada (constant chain). Em (b) uma representação de como os anticorpos podem ser utilizados em pesquisa. O antígeno, representado em verde, é reconhecido pelas porções variáveis de um anticorpo específico produzido contra ele. A presença do complexo antígeno-anticorpo é reconhecida por um segundo anticorpo capaz de reconhecer a porção conservada do primeiro. Este segundo anticorpo carrega um marcador em sua própria porção conservada, responsável por emitir algum tipo de sinal mostrando que o complexo [antígeno desejado + anticorpo primário] estava presente (ou nada é detectado, mostrando que não havia o antígeno desejado ali). Em (c) um exemplo prático mostrando células com DNA corado de vermelho e proteínas virais detectadas por um anticorpo que emite luz verde. O quadro da esquerda mostra células não infectadas (sem vírus, logo sem emissão de luz verde) enquanto o da direita mostra células infectadas (com a presença do vírus detectada indiretamente pela luz verde emitida pelo anticorpo secundário que reconheceu o anticorpo primário que estava ligado ao vírus).

Os anticorpos são comumente utilizados em vários tipos de pesquisa e aplicações: determinação da localização celular de proteínas (da própria célula ou não, como na Figura 1c) ; detecção de proteínas em amostras diversas (como por exemplo para diagnósticos) ; neutralização de alvos específicos e muitas outras aplicações. Os anticorpos utilizados em pesquisa podem ser policlonais (anticorpos diferentes que reconhecem um mesmo antígeno) ou monoclonais (anticorpos idênticos que reconhecem o mesmo antígeno), cada um com suas vantagens e desvantagens em relação a aplicações. As formas tradicionais de se produzir estes tipos de anticorpos diferem entre si, mas em ambos os casos animais de laboratório (normalmente camundongos, ratos, coelhos e bodes) precisam ser inoculados com o antígeno para o qual os anticorpos deverão se ligar. Depois da inoculação os animais precisam ser mantidos nos laboratórios tempo suficiente para que a resposta imune ocorra [3]. Durante este tempo os animais normalmente recebem mais doses do antígeno e passam por coleta de soro periódica, sendo que o processo completo pode durar meses [4].  As empresas que produzem anticorpos precisam então lidar com a preparação de antígenos, manutenção de animais (inoculados ou não) e seu sacrifício para obtenção do produto final. Não são tarefas fáceis, existem muitas regulações a serem seguidas, e a recompensa é participar de um nicho de mercado bilionário.

O catálogo de anticorpos da Santa Cruz possui mais de 70.000 anticorpos diferentes (20.000+ monoclonais e 51.000+ policlonais) [5]. Seus produtos são utilizados por laboratórios de todo o mundo, e certamente contribuíram para o avanço de várias áreas da pesquisa básica e aplicada. Como a empresa está situada nos EUA, era de se esperar que o rigor com controle de qualidade e na atenção com as regulações relacionadas a cuidados com os animais deveriam ser grande. Mas parece que este não é o caso. Lembro-me de precisar comprar anticorpos durante meu doutorado sanduíche, e meu chefe recomendou que não utilizássemos os produtos da Santa Cruz. Pensei que era uma peculiaridade dele, mas hoje vejo que na verdade reclamações em relação à qualidade dos produtos são frequentes [6,7]. Acusações de violações dos direitos dos animais, e multas por elas, não são novas para a Santa Cruz. Existem relatos de animais encontrados doentes, com mordidas de cobras ou coiotes, de galpões cheios de animais não declarados durante as fiscalizações e até mesmo de milhares de animais desaparecendo dos registros [8,9,10]! A empresa declarou que “não admite nem nega” as violações dos direitos dos animais.

A multa recebida é a maior já dada pelo Departamento de Agricultura dos EUA para este tipo de crime, e junto com a maior divulgação do caso pode ajudar a mudar a forma anti-ética de se pensar em cortar custos para obter mais lucro. Acredito que a grande maioria de quem ficou sabendo deste caso, ou que está lendo sobre ele neste texto agora, concorda que as atitudes da empresa são um absurdo e que ela mereceu a punição. Alguns pesquisadores já consideram não comprar mais produtos da empresa, o que pode trazer problemas de reprodutibilidade em experimentos a curto/médio prazo, mas que certamente mostra uma preocupação com ética em pesquisa [1,8]. A tendência de boicotar empresas que agem fora de certos padrões éticos não é novidade e acontece em vários segmentos, como nos boicotes a marcas de roupas que supostamente usam trabalho escravo ou a chocolates que supostamente usam cacau extraído por mão de obra infantil. Mas o boicote completo a produtos gerados com o uso de animais é praticamente impossível. Claro que alguns produtos como cosméticos podem deixar de ser usados sem problemas para a população, mas outros como medicamentos ou vacinas ou procedimentos médicos são essenciais e dificilmente, imagino, alguém se recusando a usá-los porque seu desenvolvimento causou sofrimento a animais de laboratório.

Após ler sobre o caso da Santa Cruz resolvi escrever aqui questionando até onde é “correto” causar sofrimento para um animal em troca de vantagem para um humano. Quando o assunto é uso de animais em pesquisa as opiniões divergem muito, indo de pessoas que defendem o uso indiscriminado de animais tendo como justificativa um bem maior para a humanidade até pessoas que são totalmente contra a despeito dos benefícios. Como não existe uma resposta correta neste caso, irei deixar aqui a minha opinião. Meu ponto de vista é que animais são necessários sim para pesquisa, ou em outras palavras: concordo em trocar o sofrimento de animais não humanos por informações que nos ajudem a compreender sistemas biológicos. Mas com uma grande ressalva: que o uso de animais seja bem planejado e bem feito. Já presenciei situações deploráveis de falta de planejamento e de controle no uso de animais em pesquisa, levando a gastos enormes de dinheiro público e a sofrimento desnecessário. Existem regulamentos e órgãos reguladores que objetivam o uso racional e a redução de sofrimento animal, que se seguidos (e se fizerem seu papel) resultam em ganho de qualidade de vida animal e dos resultados obtidos com eles.

Agora saindo do tema de animais utilizados em pesquisa e pensando de uma forma mais geral: já pararam para pensar na qualidade de vida dos vários tipos de animais usados por humanos para outros fins? Humanos têm uma péssima reputação quando consideramos a qualidade de vida de animais, sejam eles selvagens ou domesticados. Somos apontados como culpados por grandes massacres e como agentes de extinção de varias espécies. Somos naturalmente tão gananciosos e cruéis que entre a grande lista de espécies extinguidas por nós estão até mesmo nossos parentes mais próximos (outros hominídeos). De um primata onívoro sem significância na África saltamos de repente para o topo da cadeia alimentar e nossa dispersão pelo planeta trouxe uma onda de morte e destruição tão grande que o destino mais provável é que em breve nos extinguiremos também. Para quem quiser saber mais sobre nossa história e seu impacto no planeta recomendo um dos livros que mais me influenciou na vida: “Uma Breve Historia da Humanidade” escrito por Yuval Harari [11]. O autor também oferece um curso online gratuito pela plataforma Coursera e recomendo ambos (principalmente o curso, que é mais completo do que o livro) para qualquer Homo sapiens que esteja lendo este texto. Garanto que ninguém vai perder tempo lendo/ouvindo as discussões dele, que certamente mudarão a forma de ver o mundo de quem prestar atenção.

Um dos vários temas abordados pelo Harari é exatamente a qualidade de vida dos animais utilizados para satisfazer os humanos. Desde que nossa espécie começou a experimentar com uma vida sedentária e com a domesticação de plantas e animais, algumas espécies se tornaram muito numerosas. Por exemplo: Galinhas, porcos e bovinos (ou sua carne e derivados) são encontrados no mundo inteiro, e os “usamos” sem pensar muito de onde vieram e o que passaram para chegar ali. Pensando em números, vejam a Figura 2 abaixo. Em número de indivíduos existem 3,6 vezes mais animais domesticados no mundo do que humanos, e a biomassa (peso total) desses animais eh 2,3 vezes maior do que a de toda a humanidade  junta [12-14]!

Picture2

Figura 2: Estimativas da quantidade de animais no mundo. Em (a), total de indivíduos estimados para 2030. Em (b), biomassa total em toneladas.

Simplisticamente podemos pensar que esses animais estão melhores do que estariam na natureza. Vivem uma vida sem predadores (exceto quando os matamos no final, obviamente), com abrigo, alimento, com proteção a doenças e deixando um número muito maior de descendentes do que deixariam se estivessem livres. Mas não é bem assim. Mesmo provendo estes animais de tudo o que eles necessitam para ficarem vivos tempo suficiente até serem mortos para nossa conveniência, os ambientes artificiais onde eles são mantidos não fornecem os estímulos emocionais e sociais que eles necessitam para vidas plenas [12]. As condições de vida deles são miseráveis a ponto de fazer pessoas pararem de consumir produtos vindos destes animais ao presenciar parte do sistema. Espaços confinados, comida artificial, doenças degenerativas, densidades populacionais muito acima do normal, uma vida de gravidez (no caso da indústria do leite) e separação das crias constante, surtos de doenças e processos de abatimento prolongado são apenas alguns dos muitos sofrimentos aos quais eles são submetidos. Conseguimos suprir estes muitos bilhões de animais materialmente com tudo o que precisam: abrigo, comida, proteção (exceto contra nós mesmos). Mas os privamos de todas suas necessidades sociais, evolutivas e emocionais. E isto sem considerar nosso impacto para animais selvagens: seja pela morte direta através de caça ou morte indireta através de destruição de habitats ou introdução de doenças. O resultado disto tudo é sofrimento em uma escala nunca antes vista neste planeta, o que pode ser até considerado o pior crime já cometido pela humanidade [12]!

A primeira vista pode parecer contraditório pensar em uma sociedade cada vez mais atenta a valores éticos e morais permitir algo deste tipo. Mas outra característica muito importante para nós humanos é conseguir acreditar em contradições. E não estou sendo irônico, pois foi com essa habilidade que demos o passo além dos outros hominídeos e começamos a nossa dominação do mundo (novamente, leiam mais sobre isso no livro do Harari [11]). Então é perfeitamente plausível pensar em humanos completamente contra uso de animais de laboratório comendo carne com queijo em um churrasco, mesmo que o sofrimento dos bovinos que deram origem à comida deles seja igualável ou até maior do que eles querem evitar para os camundongos/coelhos/bodes/beagles/etc. A diferença está apenas no que o sofrimento resultou: alimento ou conhecimento para nossa espécie. Ou quantos de vocês começaram este texto achando um absurdo os maus tratos a animais pela Santa Cruz mas nunca pararam para pensar na vida que os animais de criação levam até serem sacrificados?

Então a mensagem final aqui é que o sofrimento animal faz parte da nossa cultura, quer que concordemos ou não. E que cada um traça uma linha (imaginária obviamente) separando o que é um absurdo do que é aceitável. Não existe uma saída fácil nem rápida, e para ser sincero a maior parte da humanidade nem deve achar que necessitamos de uma saída. Algumas pessoas acabam optando por parar de consumir qualquer produto de origem animal. Apesar de ser uma atitude “nobre”, isto não resolve o problema imediatamente. Afinal para cada um que toma esta atitude existem muitos outros Homo sapiens não se preocupando com esta questão. Sem contar que com o aumento do número de humanos no planeta a demanda de produção de alimento para suprir nossas necessidades aumentou. Consequentemente aumentou-se também a quantidade de animais domesticados e o tamanho das áreas de cultivo, resultando em mais sofrimento e mais impacto ambiental. O foco é quase sempre em produzir mais e se escuta bem pouco sobre produzir menos ou reduzir o consumo. Talvez isto seja esperado já que medidas de longo prazo não são muito bem vistas pelo sistema politico (pra que começar um projeto que vai dar resultados em 50 anos se ele não vai render votos no ano seguinte?), e políticas voltadas para redução de consumo ou controle de natalidade são impopulares. Mas algo precisa ser feito, seja pelo lado puramente voltado para ética e redução de sofrimento ou seja pelo lado mais egoísta de se querer evitar nossa extinção (se é que ainda dá tempo). Ao longo do tempo várias pessoas já chamaram a atenção para isto, e caso tivessem sido ouvidas nossa situação estaria bem melhor agora. Por exemplo, em 1959 Aldous Huxley já tratava do tema em seu livro “Regresso ao admirável mundo novo[15]. Quando o livro foi escrito a população humana era menos da metade do que é hoje, então não podemos pensar que demoramos demais a perceber o problema. Termino este texto então com as palavras dele: “Analisemos o problema da superpopulação. A quantidade sempre crescente de seres humanos pesa cada vez mais sobre os recursos naturais. O que fazer?

O que vocês acham disto tudo? Tem alguma resposta para a pergunta do Huxley? Sugestões ou querem discutir alguma coisa? Deixem comentários abaixo!


Referências:

[1]http://www.nature.com/news/us-government-issues-historic-3-5-million-fine-over-animal-welfare-1.19958
[2] https://awic.nal.usda.gov/government-and-professional-resources/federal-laws/animal-welfare-act
[3] http://ilarjournal.oxfordjournals.org/content/46/3/269.full
[4] https://www.thermofisher.com/fi/en/home/life-science/antibodies/custom-antibodies/custom-antibody-production/custom-polyclonal-antibody-production/custom-rabbit-polyclonal-antibody-production-protocols.html
[5] http://www.scbt.com/research/primary_antibodies_mammalian.html
[6] http://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2016/05/23/trouble-at-santa-cruz-biotechnology
[7] https://www.glassdoor.com/Reviews/Santa-Cruz-Biotechnology-Reviews-E39955.htm
[8] http://www.newyorker.com/tech/elements/valuable-antibodies-at-a-high-cost
[9]http://www.nature.com/news/discovery-of-goat-facility-adds-to-antibody-provider-s-woes-1.12203
[10} http://www.nature.com/news/thousands-of-goats-and-rabbits-vanish-from-major-biotech-lab-1.19411
[11] Sapiens: Uma Breve História da Humanidade ; Yuval Noah Harari. http://www.ynharari.com/sapiens/short-overview/
[12] http://www.ynharari.com/ecology/articles/the-worst-crime-in-history/
[13] http://www.fao.org/docrep/005/y4252e/y4252e07.htm
[14] http://www.fao.org/english/newsroom/news/2002/7833-en.html
[15] Regresso ao Admirável Mundo Novo ; Aldous Huxley
Fonte das figuras: Wikimedia Commons (https://commons.wikimedia.org/), exceto para figura 1c (arquivo pessoal) e gráficos (feitos a partir de dados oficiais).
Anúncios

A vacina contra gripe é perigosa?

Resolvi sair da rotina do que pretendo divulgar e irei dedicar este próximo texto a dúvidas que tenho ouvido cada vez mais nos últimos dias. Elas giram em torno de: a vacina contra gripe (H1N1) é segura? Ela causa narcolepsia ou outros problemas de saúde? Devo me vacinar? Não prometo responder todas, mas pretendo esclarecer algumas coisas para que vocês possam construir as próprias opiniões. Vou começar então falando sobre o que este texto não vai ser. Ele não será uma revisão sobre os vírus Influenza, nem sobre as pandemias de gripe, nem sobre formas de contágio ou estágios da doença, assim como não vai ser um texto pró (ou anti) vacinação. Portanto, não vou gastar espaço aqui explicando muito sobre o que é a gripe, sua história, com o vírus funciona, etc. Existem muitas outras fontes para isto, e o foco do texto iria mudar. Vou tentar ir direto ao ponto explicando apenas o que for necessário quando precisar.

A gripe é causada pelos vírus Influenza, que pertencem à família Orthomyxoviridae. Estes vírus possuem várias peculiaridades, dentre as quais vou destacar uma que será importante para melhor compreensão do que estou abordando aqui: seu genoma segmentado. Isto significa que o material genético destes vírus não é encontrado como na maior parte dos organismos, em uma molécula única. Ele é dividido em oito segmentos individuais, cada um contendo uma parte do genoma (Figura 1). Cada segmento possui diversos subtipos e quando o vírus é montado durante uma infecção ele pode receber inúmeras combinações destes segmentos. Por exemplo: os segmentos mais conhecidos são o H (hemaglutinina) e N (neuraminidase). Existem dezesseis H (H1 a H16) e nove N (N1 a N9) descritos [1]. Um novo vírus pode receber durante sua formação qualquer H e qualquer N disponível na célula infectada, sendo chamado então pela combinação resultante (H1N1, H3N2, etc). Parando para pensar sobre isso é possível concluir que a diversidade da progênie viral (“seus descendentes”) é imensa, principalmente ao se levar em consideração todos os oito segmentos, mutações em cada um deles e o fato de que mais de um tipo de Influenza pode estar presente no mesmo organismo.

Picture1

Figura 1: Representação esquemática de um vírus Influenza, com seus oito segmentos genômicos mostrados no interior da partícula (imagem retirada do Virology Blog, ótimo local para se aprender mais sobre virologia!) e diferentes gêneros dentro da família Orthomyxoviridae, conforme definidos pelo ICTV (Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus). Referências: http://www.virology.ws/2009/09/22/the-a-b-and-c-of-influenza-virus/   e    http://www.ictvonline.org/virustaxonomy.asp

O grande potencial para diversidade faz com que os vírus Influenza mudem o tempo inteiro. E este é um desafio para a vacinação, uma vez que se tomar uma vacina contra o vírus “errado” não imuniza a pessoa contra o vírus que estará circulando naquele ano. Como o processo de produção da vacina é demorado, a prática adotada tem sido reformular as vacinas todo ano para melhor adequá-las às linhagens virais que provavelmente estarão circulando no futuro próximo. Nas ultimas décadas o GISRS (Sistema de Vigilância e Resposta Global Contra Influenza, da Organização Mundial de Saúde) monitora a evolução e dispersão dos vírus Influenza e recomenda quais linhagens virais devem ser utilizadas para a produção das vacinas [2]. Existem três formas de se produzir as vacinas contra gripe. A mais tradicional é feita com o uso de ovos embrionados de galinha, mas células de mamíferos ou vírus recombinantes também são usados em certos casos. As diferenças são o tempo de preparo, os antígenos exógenos que podem estar presentes no produto final e o fato de se usar ou não vírus geneticamente modificados. A recomendação do vírus a ser usado vem da OMS (Organização Mundial de Saúde), as vacinas são produzidas por laboratórios diversos (em sua maioria privados) e os lotes produzidos são liberados após serem aprovados pelas autoridades competentes locais [3]. A regulação varia dependendo do País que vai usar a vacina, e como são muitas empresas e muitas metodologias envolvidas, o processo de preparo (e componentes encontrados na vacina pronta) difere entre os fabricantes e mesmo entre os lotes.

Agora que já sabemos que o vírus é bem peculiar, muda o tempo todo, e que as vacinas são feitas cada vez com um vírus diferente e de formas distintas, posso voltar às perguntas principais: estas vacinas são seguras? Elas causam narcolepsia? A narcolepsia é uma condição neurológica crônica resultante da incapacidade do cérebro em regular os ciclos de despertar e dormir corretamente. Pacientes sofrem de sonolência profunda muitas vezes acompanhada de relaxamento muscular repentino, e é difícil imaginar como isto pode estar relacionado a uma vacina contra gripe. Mas o fato é que mais de 1300 pessoas vacinadas contra H1N1 na Europa em 2009/2010 desenvolveram narcolepsia, uma relação causal forte e que foi investigada. Até mesmo a GlaxoSmithKline (GSK), produtora da vacina, admitiu a ligação entre a vacina e o aparecimento de narcolepsia e já compensou financeiramente alguns pacientes e suas famílias [4]. A relação entre esta vacina específica de 2009 (Pandemrix, Figura 2) da GSK e o aparecimento de narcolepsia também foi reconhecida pelo CDC (Centro de Controle de Doenças, EUA). Segundo o CDC, a vacina Pandemrix produzida para uso contra H1N1 na Europa em 2009 aumentou o risco de narcolepsia em vacinados, sendo que isto foi inicialmente percebido na Finlândia e posteriormente em outros lugares como no Reino Unido. Eles também afirmam que a vacina nunca foi utilizada nos EUA, e analisaram bancos de dados relacionados a reações adversas nas vacinações contra Influenza nos EUA para provar que as vacinas utilizadas por eles não causaram este tipo de problema [5].

Picture2

Figura 2: Imagem de frascos da vacina Pandemrix produzida pela GSK em 2009 [4].

Mas como a Pandemrix levou ao aparecimento de narcolepsia em uma pequena parte dos vacinados? A relação entre a vacina e a doença parecia clara, até a empresa responsável e o CDC reconheceram o problema, mas não se sabia como isto acontecia. Ano passado um artigo foi publicado explicando a possível causa, após pesquisadores americanos e italianos procurarem por proteínas do cérebro humano que se assemelhavam às proteínas encontradas na vacina. E um alvo foi encontrado: uma parte do receptor humano para hipocretina (molécula responsável pela regulação do sono, entre outros) era bem parecida com uma proteína do H1N1. Esta era uma nucleoproteína viral codificada por um segmento genômico diferente do H e do N. Foi proposto então que a vacina Pandemrix, ao gerar uma resposta imune contra o vírus H1N1, também poderia levar à produção de anticorpos capazes de reconhecer um receptor do cérebro humano responsável pela regulação do sono! Estes anticorpos poderiam então se ligar ao receptor humano levando à morte das células onde eles se encontram, dando origem à narcolepsia. Outro grupo de pesquisadores mostrou que a vacina Pandemrix continha níveis mais elevados desta nucleoproteína do H1N1 em comparação com vacinas não associadas com o risco de narcolepsia. Também foi mostrado que soro de pacientes com narcolepsia que receberam a vacina Pandemrix possuía anticorpos contra o receptor, e que soro de pessoas que receberam outras vacinas não possuía estes anticorpos. Como o número de pessoas afetadas foi baixo frente ao número total de vacinados com a Pandemrix (mas ainda assim significativo), o mais provável é que fatores genéticos dos vacinados também contribuíram para a resposta autoimune. A pergunta que surgiu em seguida foi: se a vacina Pandemrix pode levar a narcolepsia devido à resposta imune contra uma proteína viral presente nela, será que o vírus por si só não levaria a narcolepsia também? Alguns dados mostram que sim, já que casos de narcolepsia apareceram na China após a pandemia de 2009 (onde a Pandemrix não foi usada). Todos estes resultados são interessantes, e pesquisas futuras dedicadas a estas observações irão ajudar a confirmar (ou refutar, apesar das várias evidencias até então) a ligação da vacina usada em 2009 na Europa e do próprio vírus Influenza com a narcolepsia [4,6]. Qual o impacto disto tudo? Primeiro ganhamos mais informações sobre os mecanismos da narcolepsia, que poderão ser usadas para estudos sobre a doença. Depois, temos evidencias fortes de uma reação autoimune originada por vacinas produzidas fora de células de mamíferos, devido a um antígeno do vírus contra o qual ela foi feita para proteger. Isto também abriu portas para vacinas mais seguras, que poderão ter os níveis desta nucleoproteína viral avaliados antes da liberação ou mesmo serem feitas com vírus recombinantes sem a nucleoproteína. E temos o impacto disto nas epidemias de Influenza: se algumas variações do vírus Influenza forem realmente capazes de causar narcolepsia em pessoas geneticamente susceptíveis, devemos tomar ainda mais cuidado em como lidar em situações de pandemia?

Termino o texto respondendo perguntas óbvias que deve ter surgido na cabeça de vocês. A primeira deve ser: e no Brasil? Pesquisando no site do Ministério da Saúde descobri que a vacina ofertada pelo SUS é feita pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório privado Sanofi Pasteur. A vacina da campanha de 2016 é trivalente e protege contra H1N1, H3N2 e Influenza B conforme recomendação da OMS [7]. O informe técnico do Ministério relacionado à campanha de 2016 coloca como contraindicação da vacina alergia grave a ovos ou derivados, o que mostra que a vacina é produzida em ovos. Durante o processo os vírus são inativados (mortos, possivelmente por métodos químicos) e posteriormente fracionados e purificados, então não existem vírus vivos nem inteiros na vacina. O informe menciona que em 2009 casos de narcolepsia foram associados à vacinação em países nórdicos, mas diz que não há uma conclusão efetiva sobre o caso (ao contrário da afirmação feita por pesquisadores e pelo CDC mencionados acima). Não há nenhuma menção aos níveis da nucleoproteína problemática nas vacinas, mas existe uma afirmação de que não houveram casos de narcolepsia associados à vacina do Instituto Butantan – Sanofi Pasteur no passado [8]. Além destas informações fornecidas pelo Ministério da Saúde, achei uma apresentação de dados da Escola Nacional de Saúde Publica da Fundação Oswaldo Cruz datada de março de 2010 mencionando que se usou três tipos de vacina contra H1N1 no Brasil: compradas da Novartis, Sanofi Pasteur e a Pandemrix da GSK [9]! Então acredito que a rede privada pode ter outras vacinas que não a do Butantan – Sanofi, o que pode tornar qualquer generalização sobre vacinas contra gripe no Brasil um pouco perigosas. Como não existem dados sobre a associação entre narcolepsia e a Pandemrix no Brasil, talvez a quantidade utilizada na época foi pequena ou a notificação de problemas não foi feita corretamente. Uma publicação simples de pesquisadores de São Paulo afirma que 25% da população foi vacinada com a Pandemrix, mas não consegui confirmar este dado na referencia citada por eles [10]. Seria ótimo se alguém com mais informações sobre isso pudesse nos esclarecer nos comentários!

Finalmente, vamos à última pergunta que quero tentar responder aqui. Tomar a vacina é seguro? Como vimos acima as vacinas variam muito, de acordo com os vírus utilizados e de acordo com os métodos de produção. Dizer que uma vacina é 100% segura é uma visão muito simplista das coisas, assim como dizer que as vacinas só causam mal. Estas visões equivocadas que mais parecem brigas por futebol (e infelizmente por política, recentemente), onde cada um escolhe um “lado” e o defende ignorando seus problemas e não reconhecendo as qualidades do outro, não trazem nada de bom para tomadas de decisões. As vacinas são muito importantes, mesmo com seus defeitos. Foi com a vacina contra varíola, que causava reações dolorosas e deixava cicatrizes, que a humanidade conseguiu erradicar uma das piores doenças que já existiu. Foi graças à vacina Sabin contra poliomielite (o famoso Zé Gotinha), que tem uma chance de um em alguns milhões de causar paralisia vacinal, que se reduziu imensamente a quantidade de crianças acometidas por paralisia infantil no mundo. E eu poderia citar muitos outros exemplos de vacinas capazes de causar problemas mas que trouxeram ganhos muito maiores para a humanidade. Mas não podemos esquecer os problemas. Casos de problemas com vacinas sempre aparecem, e apesar de muitos serem falsos ou nunca confirmados, alguns são reais. Existe muito dinheiro envolvido por trás das vacinas e vacinações e não podemos ser ingênuos de pensar que a indústria não pensa no lucro, que todos os políticos e reguladores são idôneos, e que todos os contratos e acordos são isentos de corrupção. Existe também o erro humano: a produção de imunobiológicos é bem regulada e controlada nos laboratórios responsáveis, mas problemas podem aparecer mesmo nos melhores lugares [11]. Sem contar os fatores genéticos de cada um, que podem proteger contra certos problemas ou deixar a pessoa susceptível a eles. Então, acredito que a saída esta no caminho do meio, com a utilização de conhecimento e pensamento racional. Saber qual vacina você está tomando, porque está tomando, e quais problemas podem surgir é uma ótima atitude. Não tomar a vacina contra H1N1 e correr o risco de pegar gripe (uma doença aguda e grave) porque uma vacina diferente aumentou os riscos de narcolepsia em uma população diferente mais de 5 anos atrás faz sentido? Ou é melhor garantir que você vai se imunizar contra H1N1, protegendo a si mesmo e evitando de espalhar o vírus caso tenha contato com ele, sabendo qual vacina você tomou e assumindo que riscos pequenos de complicações podem acontecer? E o mais importante: não tomem decisões se baseando em qualquer boato que aparece por aí. Parem, se informem, pensem e decidam! 

PS: Depois de terminar o texto vi que estão surgindo boatos associando a vacina contra gripe com a Síndrome de Guillain Barré (SGB)! Voltei ao informe técnico de 2016 do Ministério da Saúde e à pagina do CDC e vi que ambos apresentam quase as mesmas informações: uma única vez se detectou risco (pequeno) aumentado de SGB após vacinação contra gripe, mas isto aconteceu em 1976. Trabalhos posteriores sobre o assunto apresentam resultados contraditórios, e não foram capazes de mostrar exatamente porquê. Existem relatos que a própria infecção por Influenza em pessoas não vacinadas pode levar a SGB, em níveis muito maiores do que o risco de SGB desencadeada por vacinações (que é de 1 em um milhão aproximadamente) [8 , 12]. Então, voltamos ao que foi discutido acima: a vacina pode ter um risco bem baixo de complicações ligadas à SGB, mas em contrapartida tem o benefício quase certo de proteger o vacinado contra a doença (neste caso, também o protegendo do risco de SGB vindo da infecção natural). Será que vale a pena tomar a vacina, ou é melhor arriscar não tomá-la?

Alguma dúvida, palpite, informações não incluídas no texto ou sugestões para outros temas a serem abordados no futuro? Deixem um comentário!


Referências Bibliográficas

  1. Ghedin et al 2009 ; Mixed Infection and the Genesis of Influenza Virus Diversity ; Journal of Virology. http://jvi.asm.org/content/83/17/8832.full#ref-9
  2. Who Writing Group 2010, Improving influenza vaccine virus selection: report of a WHO informal consultation held at WHO headquarters, Geneva, Switzerland, 14-16 June 2010 ; Influenza Other Respir Viruses ; 2012 Mar;6(2):142-52, e1-5. doi: 10.1111/j.1750-2659.2011.00277.
  3. http://www.cdc.gov/flu/protect/vaccine/how-fluvaccine-made.htm
  4. http://www.sciencemag.org/news/2015/07/why-pandemic-flu-shot-caused-narcolepsy
  5. http://www.cdc.gov/vaccinesafety/concerns/history/narcolepsy-flu.html 
  6. Ahmed et al 2015 ; Antibodies to influenza nucleoprotein cross-react with human hypocretin receptor 2 ; Science Translational Medicine. http://stm.sciencemag.org/content/7/294/294ra105
  7. http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/perguntas-e-respostas-influenza
  8. http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/marco/11/informe-tecnico-campanha-vacinacao-influenza-2016.pdf
  9. http://www.ensp.fiocruz.br/biblioteca/dados/txt_16817315.ppt
  10. Fernandes et al 2015 ; Influenza A (H1N1) pandemic vaccination – an underlying risk factor for many CNS complications in Brazil ; Arq. Neuro-Psiquiatr, http://dx.doi.org/10.1590/0004-282X20140175
  11. http://www.nature.com/news/nih-suspends-clinical-trials-after-contamination-risk-discovered-1.19793
  12. http://www.cdc.gov/flu/protect/vaccine/guillainbarre.htm

Mulher Brasileira: Bela, Brilhante e do Lab

Todos nossos leitores sabem que o foco do blog Buteco da Biologia é fazer divulgação científica de maneira responsável, baseando nossos artigos no que há de mais recente na literatura científica e tentando passar isso para o público de um modo que lhes seja fácil de compreender. É notório, ainda, que este blog não se posicionou, de nenhuma forma, acerca do momento político do Brasil, pois não achamos que cabe este tipo de discussão aqui, bem como porque acreditamos que devemos respeitar a opinião de cada um, assim como o direito de livre expressão de qualquer pessoa.

Contudo, no dia 18 de abril de 2016, apenas um dia após a aprovação da admissibilidade do processo de impeachment contra a Presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados, a Revista Veja publicou uma reportagem intitulada: “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar’”, exaltando estas qualidades da esposa do Vice-Presidente da República Michel Temer, como se fossem características primordiais e exemplares a serem seguidas por toda e qualquer mulher. O blog Buteco da Biologia repudia o comportamento machista da Revista Veja, visto que o papel da mulher na nossa sociedade não pode ser resumido a isto e que observamos, diariamente, que várias destas mulheres (independentemente de serem “do lar” ou não) contribuem, à sua maneira, para construírem um país melhor. Sem elas, certamente, muitos dos avanços que temos o prazer de desfrutar hoje em dia, seriam impossíveis. Sem elas, a ciência nunca teria chegado ao patamar que chegou hoje.

bertha lutzmarta vannucciDraTabitagraziela barrosoruthSuzanaSextanteAllineCristinaCposjohannaDAIANA _ ávillaernarosalind-franklinkrbbjncropped3

Figura 1 – Mulheres nas Ciências Biológicas: da esquerda para a direita e de cima para baixo: Bertha Lutz, Marta Vannucci, Tábita Hunemeier, Graziela Barroso, Ruth Nussenzweig, Suzana Herculano-Houzel, Alline Campos, Johanna Döbereiner, Daiana Ávilla, Erna Kroon e Rosalind Franklin. Fonte: Google Images

De fato, se fôssemos escrever um artigo sobre a contribuição individual de cada mulher que tenha dedicado sua vida a fazer ciência, a nossa postagem seria sem fim. Basta uma simples olhada para a história científica para vermos que importantes contribuições no campo da radioatividade (Marie Curie, franco-polonesa), na estrutura da molécula de DNA (Rosalind Franklin, britânica) e na biodiversidade brasileira (Bertha Lutz, brasileira) tem o dedo destas brilhantes mulheres. Inclusive, um dos vencedores do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia do último ano é a cientista Youyou Tu, por sua contribuição na descoberta de uma nova terapia contra a malária.

Este blog tem planejado duas postagens a serem lançadas em breve: uma a respeito de uma publicação sobre intragenia, do grupo do pesquisador Carlos Bloch Jr. (Embrapa), e outra sobre o vírus da gripe H1N1. Entretanto, em face dos recentes acontecimentos e como forma de homenagear as cientistas brasileiras que fogem do “modelo padrão da mulher brasileira” difundido pela Revista Veja, o Buteco da Biologia resolveu adiar o lançamento destas duas matérias e fazer, em seu lugar, um pequeno resumo sobre as cientistas brasileiras pioneiras na pesquisa em Biologia e que mostraram, desde cedo, que lugar de mulher também é no laboratório.

TOP 5 – PIONEIRAS DAS CIÊNCIAS BIOLÓGICAS (baseado no documento “Pioneiras da Ciência no Brasil” disponível na página do CNPq):

 

  • Bertha Lutz (Bióloga; 1894-1976) – Bertha Lutz foi uma pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro tendo atuado, principalmente, como zoóloga especializada em anfíbios. Ela alcançou grande reconhecimento internacional como cientista, tendo descrito várias espécies animais como Liolaremus lutzae e Paratelmatobius lutzii. Bertha também contribuiu de forma significativa para a pesquisa em botânica, tendo organizado sistematicamente o primeiro herbário do seu pai e também pesquisador Adolpho Lutz e publicado o importante estudo intitulado “Estudos sobre a biologia floral da Magnifera indica L.”. Além de sua atuação como cientista, ela também teve grande importância na vida política do Brasil, como ativista do movimento feminista brasileiro, havendo contribuído, de forma significativa, para a instituição do direito das mulheres ao voto em 1932 [1,2].
  • Graziela Barroso (Botânica; 1912-2003) – Graziela Barroso foi cientista e docente na Universidade de Brasília (UnB), tendo trabalhado na catalogação de diversas plantas do Brasil, sendo considerada a maior especialista nesta área. Graziela é autora de dois dos mais importantes livros na botânica brasileira: “Sistemática de Angiospermas do Brasil” e “Frutos e Sementes”. Além de ter adquirido reputação internacional por sua excelência na Botânica, ela chegou a ser eleita para a Academia Brasileira de Ciências em 2003; contudo, faleceu menos de um mês antes de tomar posse. Em sua homenagem, diversos pesquisadores atribuíram a novas espécies de planta descobertas o seu nome, tais como Dorstenia grazielae e Diatenopteryx grazielae [1,3].
  • Johanna Döbereiner (Agrônoma; 1924-2000) – Johanna Döbereiner nasceu na República Tcheca em 1924, tendo se naturalizado Brasileira em 1956, e desenvolveu importantíssimos trabalhos acerca da fixação biológica de nitrogênio, o que levou a uma redução significativa no consumo de fertilizantes nitrogenados nas plantações de soja do Brasil e à economia significativa nos custos de produção dos seus grãos, fazendo do Brasil o país com o menor custo de produção da soja no mundo. Os seus trabalhos com a associação de bactérias fixadoras de nitrogênio do gênero Spirillum, desenvolvidos na EMBRAPA, foram importantes, também, para o desenvolvimento de programas de produção de biocombustíveis e cultivo da cana-de-açúcar no Brasil, como o PROALCOOL. Johanna foi vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências em 1995 e, devido aos seus esforços em reduzir o uso de fertilizantes agrícolas e nos custos da plantação, ela chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 1997, embora não tenha sido agraciada com tal honraria [1,4].
  • Marta Vannucci (Ecóloga; 1921-) – Marta Vannucci foi bióloga, atuando com ênfase em oceanografia ecológica, tendo sido uma das fundadoras e a primeira mulher diretora do Instituto de Oceanografia da USP. Marta trabalhou, inicialmente, com ecossistemas de mangue, tendo ajudado, posteriormente, a criar um atlas, junto mais de 300 outros cientistas do mundo, descrevendo os ecossistemas de mangue existentes no globo. Sua principal área de atuação, no entanto, esteve relacionada ao estudo do plâncton marinho, tendo sido uma das primeiras pessoas a estudar e ajudar a entender a oceanografia do Oceano Índico, quando atuou como pesquisadora na Índia a convite da UNESCO. Atualmente, Marta é professora aposentada da USP, Sênior Expert in Marines Science da UNESCO e Honorary advisor do International Society of Mangrove Ecosystems de Okinawa, no Japão [1,5].
  • Ruth Nussenzweig (Parasitologista; 1928-) – Ruth Nussenzweig é parasitóloga, tendo iniciado sua vida acadêmica com o Dr. Samuel Pessoa no Departamento de Parasitologia da USP. Inicialmente, Ruth trabalhou com o parasito causador da Doença de Chagas Trypanosoma cruzi, na tentativa de reproduzir os dados encontrados anteriormente por cientistas russos do uso do mesmo para o tratamento e cura do câncer. Embora os resultados deste estudo tenham se mostrados negativos, durante seus experimentos Ruth e seus colegas conseguiram mostrar que o uso de violeta genciana ao sangue contaminado com o parasita previne a transmissão da doença. Após trabalhar um período como docente na Universidade de São Paulo e cursar o pós-doutorado na França, Ruth deixa o Brasil em 1964 devido ao período conturbado pelo qual passava o país, logo após o estabelecimento do Regime Militar. Ela passa, então, a integrar o Centro Médico da New York University, onde tornou-se Professora Titular no Departamento de Parasitologia Médica e Molecular. Nos anos seguintes, Ruth dedicou-se à busca por uma vacina eficaz contra a malária, estabelecendo redes de colaboração, inclusive com pesquisadores da FIOCRUZ. Devido à relevância do seu trabalho como cientista, Ruth Nussenzweig foi condecorada, em 1998, com a Ordem Nacional do Mérito Científico classe Grã-Cruz pela Presidência da República [1,6].

Dentre as cientistas brasileiras de grande renome, tanto no cenário nacional quanto internacional, que atuam atualmente nas mais diversas áreas da Biologia, podemos citar [7,8]:

  • Alline Campos (Universidade de São Paulo), que atua pesquisando a produção de medicamentos com efeitos colaterais reduzidos para pacientes que sofrem de ansiedade e depressão.
  • Daiana Ávilla (Universidade Federal do Pampa), que trabalha com o desenvolvimento de uma nova terapia para a esclerose lateral amiotrófica.
  • Tábita Hunemeier (Universidade de São Paulo), que faz pesquisa na área de Genética e Biologia Evolutiva, trabalhando, atualmente, na elucidação dos caracteres que diferenciam a população do continente americano daquelas dos demais continentes.
  • Suzana Herculano-Houzel (Universidade Federal do Rio de Janeiro) é uma neurocientista, cuja principal área de atuação é a neuroanatomia. Suzana é responsável pelo desenvolvimento de um método para contagem da quantidade de neurônios no cérebro humano e de outros animais, bem como por descrever a relação da espessura e área do córtex cerebral com o número de giros do cérebro. Ela também atua com divulgação cientifica de qualidade há muitos anos, e faz análises críticas bem interessantes sobre os vários problemas enfrentados por cientistas brasileiros (clique aqui para acessar o blog dela)[9].
  • Erna Kroon (Universidade Federal de Minas Gerais) é uma virologista, que atualmente atua desenvolvendo pesquisa sobre os Vírus da Dengue, Vaccinia Bovina e aqueles capazes de causar infecções no sistema nervoso central. Erna foi responsável por grandes avanços no estudo de surtos causados por Vaccinia vírus no Brasil, é reconhecida pela sua capacidade em formar novos cientistas e já fez parte da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) [10, 11].

Além destas mulheres que contribuíram (e contribuem) de forma muito grandiosa para a ciência brasileira, muitas outras continuam dando suas vidas em prol do desenvolvimento das Ciências Biológicas e constituem grande parte da elite intelectual não apenas do nosso país, mas também do mundo. O blog Buteco da Biologia gostaria, também, de deixar sua homenagem e agradecimento à todas as mulheres que continuam lutando pela ciência brasileira e vencendo a cada dia os inúmeros desafios que é ser produtivo nesta área em nosso país, desde as dificuldades em obter financiamentos razoáveis até mesmo por simples questões estruturais das instituições de pesquisa brasileiras.

O nosso blog gostaria de deixar bem claro sua posição de reprovação ao conteúdo machista publicado pela Revista Veja e reitera seu posicionamento de que o lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive nas bancadas dos laboratórios de pesquisa do Brasil.

Assinam esta os Colaboradores do Blog Buteco da Biologia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] – DE MELO, H. P.; RODRIGUES, L. M. C. S. Pioneiras da Ciência no Brasil. Rio de Janeiro: SBPC, 2013.
[2] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Lutz
[3] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Graziela_Maciel_Barroso
[4] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Johanna_D%C3%B6bereiner
[5] – http://www.io.usp.br/index.php/noticias/49-io-na-midia/862-a-mulher-que-navegou-nos-mares-do-mundo-marta-vannucci
[6] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Ruth_Sonntag_Nussenzweig
[7] – http://cientistabeta.com.br/2016/03/08/cientistas-mulheres-poderosas-e-brasileiras-parte-1/
[8] – http://cientistabeta.com.br/2016/03/09/cientistas-mulheres-poderosas-e-brasileiras-parte-ii/
[9] – https://en.wikipedia.org/wiki/Suzana_Herculano-Houzel
[10] – Currículo Lattes da Profa. Erna G. Kroon.
[11] – https://www.ufmg.br/boletim/bol1760/5.shtml

 

Fotografia e arte: o poder da informação visual e sua importância na vida do biólogo

Como seria um mundo sem escrita? E sem internet? As coisas seriam diferentes sem imagens, figuras ou fotos? Como ficaria a comunicação e a troca de informações em um mundo globalizado e com fluxo tão acelerado de dados? Se, nos dias de hoje, ficássemos repentinamente desprovidos destas tecnologias por um motivo qualquer, certamente viveríamos algum tipo de apocalipse global. Nossa cadeia produtiva, sobretudo no meio urbano, foi quase completamente computadorizada e automatizada com auxílio dos avanços na eletrônica e na tecnologia digital, o que nos torna dependentes da capacidade dos computadores de processar informações e integrar os diversos sistemas. Em outras palavras, todas as nossas relações pessoais, nossa construção social, política, cultural e nossa economia baseiam-se na nossa capacidade de comunicação. Sem os meios adequados para isto, ficamos, basicamente, cegos.

Mas nem sempre foi assim. Toda esta história é muito recente. Há pouco mais de 20 anos não dispúnhamos de internet no Brasil. A fotografia foi oficialmente apresentada ao público a menos de 200 anos. A linguagem escrita, um dos passos mais importantes para a vida em sociedade, tem pouco mais que 3000 anos. Então por quê, em um intervalo de tempo tão curto, nos tornamos tão dependentes dos meios de comunicação? O fato é que somos seres visuais. Nossa percepção de mundo é baseada em informações que recebemos e padrões que podemos construir a partir delas. Em geral, nossos sentidos não são os melhores dentro do reino animal. Temos uma olfação ruim e uma audição que deixa a desejar. Não temos linha lateral, órgãos de orientação magnética ou qualquer coisa do tipo. Nós praticamente exploramos o mundo através da visão, ainda que esta não esteja entre as melhores. Talvez este seja um dos motivos pelos quais depositamos tanta confiança neste sentido em especial, e às vezes somos ludibriados por ele.

foto 1 augusto

“Nós praticamente exploramos o mundo através da visão”. Fotografia de Augusto Gomes (http://augustomilagres.wix.com/)

Apesar dessa limitação sensorial, temos uma característica interessante e raramente vista entre outros animais: podemos fazer abstrações sobre objetos e fatos que observamos. No jargão da simbologia, fazemos conotações (atribuímos significados indiretos) a partir de denotações (algo que se observa diretamente). Isto pode parecer simples, mas depende de uma incrível capacidade de reconhecer padrões e armazenar na memória uma informação secundária associada a eles, de forma que possamos compará-los com seus semelhantes e dissocia-los de outros, tanto na forma literal quanto metafórica. A forma como organizamos estas informações leva a diferentes construções de conhecimento: ciência, arte, política, religião, música, etc. Para a discussão deste artigo, estamos particularmente interessados nos dois primeiros itens.

Mas o que é arte, e o que é ciência? Isto tem sido tema de debate desde que ambos os conceitos foram forjados, talvez uma discussão tão antiga quanto o tema em si. Em tese, ciência seria qualquer forma de adquirir conhecimento sob um método sistematizado, guiado por perguntas e hipóteses, e que seja preferencialmente replicável, testável e passível de falseamento. Já a arte pode ser entendida como um meio ou processo subjetivo de transmissão de ideias. É uma atividade de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens. Note que estes dois campos de conhecimento diferem principalmente pelo método, mas abrem espaço para muitos objetivos convergentes. Neste sentido, fotografia se enquadraria no conceito de arte? As opiniões se dividem. Há quem diga que fotografia não pode ser arte em função da natureza mecânica de captação da imagem. Ela violaria assim duas premissas básicas da arte: a singularidade da obra (não-reprodutibilidade) e a habilidade manual requerida para sua confecção. Outros alegam que o processo de construção da imagem está sujeito à interferência e manipulação do fotógrafo em toda a sua extensão, sendo a fotografia uma forma de arte. Nas palavras do fotógrafo Ansel Adams, “não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos.” Ou seja, a fotografia seria um processo criativo em que o autor participa ativamente.

E como a fotografia poderia atuar como arte? Ela é extensivamente usada na representação de pessoas, objetos, lugares, situações, emoções, além de ser um instrumento de mobilização social, revolta, expressão pessoal, transmissão de ideias, engajamento político, dentre outros. A fotografia goza de uma liberdade especial ao atuar como arte, uma vez que o compromisso é firmado com os sentimentos do autor, e não com a “veracidade” do assunto. Já no campo científico, a fotografia assume um papel basicamente documental, semelhante ao fotojornalismo, em que a imagem deve retratar com a maior precisão possível as estruturas ou processos que são alvo daquele estudo, aproximando-se ao máximo de como ele foi presenciado pelo fotógrafo.

Porém, nem mesmo a fotografia documental está isenta de armadilhas. Vários parâmetros (ISO, velocidade, abertura, ângulo, balanço de branco, perspectiva, foco, composição, etc) podem ser ajustados de forma a valorizar mais um determinado ponto de vista ou aspecto de interesse. Isso sem falar na forma com que um determinado assunto é abordado (uma pessoa ou animal podem responder de formas diferentes a aproximações distintas). Além dos fatores inerentes à produção da imagem, sua interpretação também será influenciada pelo contexto em que ela foi feita (cultural, social, político, histórico, econômico, ambiental…), do contexto em que ela é lida, do conhecimento prévio do leitor sobre o contexto da foto, e das informações que a acompanham (textos, legendas ou outras fotos, por exemplo). Em suma, os significados atribuídos a uma determinada imagem não são fixos.

A esta altura o leitor já deve estar se perguntando sobre o real papel documental da imagem, já que sua interpretação está sujeita a tantas variáveis. Qual é o limite entre a veracidade e o fictício? Durante muito tempo, a fotografia carregou um enorme peso de ser a representação da realidade, um pacto inexorável com os fatos. Como dizem os ditados populares, “ver é crer”, ou “a câmera nunca mente”. Será? Felizmente, esta associação tem sido desfeita frente a trabalhos de artistas abstratos, de representações fotográficas surrealistas, e também de fotógrafos que se dispõe a mostrar cenas banais sob perspectivas diferentes, colocando em jogo a forma com que julgamos e confiamos em uma imagem. Artistas como Escher, ilusionistas óticos, ou grafiteiros que fazem projeções em 3D, atingiram este objetivo com primazia. O fotógrafo Richard Salkeld resume bem a questão: “a verdade de uma fotografia reside em mostrar a aparência de uma cena, em um determinado momento, de um determinado ângulo, captada por uma determinada câmera com uma determinada lente.”

Chegamos aqui ao ponto principal deste texto – a fotografia é, acima de tudo, uma linguagem, tal como a escrita, a música e a dança. E como qualquer linguagem, a fotografia é escrita com palavras, frases e versos. Ela demanda leitura e interpretação, e é repleta de nuances, metáforas e simbologias. A fotografia transporta, representa ou reconstrói realidades, mas nunca será “A realidade”. E, sendo uma linguagem, ela pode e deve ser usada para transmitir mensagens, inclusive dentro do universo acadêmico e da biologia, sobre os quais a maioria de nós está interessada.

O advento da fotografia digital foi um grande avanço nesse sentido. Ele popularizou e democratizou o uso da fotografia, permitindo que uma avalanche de imagens seja produzida e carregada na web diariamente, por qualquer um, em qualquer lugar. Todos têm uma câmera disponível em segundos no celular, e o registro dos mais variados temas e a documentação em tempo real foram grandemente facilitados. Entretanto, a cultura de massa leva também à banalização da imagem. Poucos de nós pensam um pouco antes de dar um click, e ainda menos pessoas pensam na mensagem transmitida por aquele click. Apesar da maior facilidade de acesso e da produção de um número sem igual de fotos, este material, em geral, tem pouca serventia. Não se escreve um texto sem antes pensar nas palavras. Não se pinta algo sem que se queira transmitir uma mensagem ou sentimento. O mesmo se sucede com a fotografia. É interessante que sejamos mais cautelosos nesse sentido, e que passemos a refletir mais sobre o papel da imagem nas nossas vidas e o que pretendemos transmitir com uma dada imagem.

Essa discussão é particularmente importante para o biólogo quando consideramos a variedade de meios em que a fotografia é utilizada: registro dos seres vivos, seu comportamento, seu hábitat, estruturas anatômicas, fisiologia, interações, processos ecológicos e evolutivos, monitoramento e estudos aplicados, ilustração de publicações, divulgação científica, educação ambiental, ações de conservação, etc. A ferramenta é também utilizada em uma grande amplitude de escalas, do micro ao macro: células, tecidos, indivíduos, populações, comunidades, ecossistemas e até imagens da biosfera podem ser captadas através de satélites. Sem dúvida são usos distintos da fotografia que envolvem, inclusive, equipamentos e técnicas diferentes.

foto 2

Cervo do Pampa. Fotografia de Augusto Milagres (http://augustomilagres.wix.com/)

Proponho que, de forma semelhante à pesquisa científica, onde sempre elaboramos uma pergunta antes de montar um projeto, façamos o mesmo na fotografia. Qual é a minha pergunta? O que pretendo dizer com esta imagem? Se não somos capazes de responder a isto (ou ao menos de nos fazer este questionamento) provavelmente o tempo gasto fotografando algo foi em vão. Uma imagem sem propósito não tem serventia no meio científico. Ela pode até ter algum valor artístico, mas ainda sim deve, no mínimo, provocar nossos pensamentos.

Como investigadores da vida, devemos, ainda, ter um trabalho de documentação mais cuidadoso e apresentar um domínio mínimo dos conceitos e técnicas fotográficas. Por quê, em geral, gastamos tanto tempo lendo e escrevendo, mas dedicamos tão pouco tempo na produção das nossas fotos ou ilustrações? Frequentemente as imagens agregam um valor sem igual aos nossos trabalhos, sintetizando uma enorme quantidade de informações num espaço reduzido. Elas podem ser complementares a gráficos, tabelas e textos, ou, por vezes (dependendo, obviamente, do escopo do trabalho), até substituí-los! Muitos dos grandes naturalistas do século XIX eram também exímios ilustradores, pois reconheciam a importância das gravuras para seus trabalhos. Por quê esta prática foi perdida? Só temos a ganhar explorando esse poderoso instrumento, afinal, “uma imagem diz mais que mil palavras”!


Referências Bibliográficas

Barthes, R. 1980. A câmara clara. Ed. Nova Fronteira, 3ª ed.
Salkeld, R. 2014. Como ler uma fotografia. Ed. Gustavo Gili.
http://www.escolapublicadefotografia.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciência