Sofrimento animal e a linha tênue entre o que é ético e o que é conveniente para nós humanos

Antes de tudo desculpem pelo texto grande! Comecei a escrevê-lo com o foco na questão da Santa Cruz (contada no parágrafo abaixo) e depois achei melhor aproveitar o tema para expandir as discussões sobre ele. Então tenham paciência e leiam até o fim!

Em maio, uma notícia me chamou a atenção: a empresa americana Santa Cruz Biotech (http://www.scbt.com/) foi multada em 3,5 bilhões de dólares acusada de violações dos direitos dos animais [1,2]. Quem não está acostumado com certas áreas de pesquisa deve estar se perguntando: o que uma empresa de biotecnologia tem a ver com violação de direitos dos animais? A resposta neste caso está na produção de anticorpos. Como parte do sistema imunológico, os anticorpos são moléculas cuja função é reconhecer e se ligar a alvos específicos, tornando estes alvos então neutralizados e/ou marcados para etapas posteriores da resposta imune. A alta especificidade das porções variáveis dos anticorpos aliada a suas porções conservadas os tornam bastante úteis em pesquisa, já que alvos específicos podem ser reconhecidos pela primeira e os anticorpos contra este alvo especifico são reconhecidos pela segunda (quem estiver interessado em maiores detalhes pode dar uma olhada na Figura 1 abaixo).

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Figura 1: Em (a) uma representação esquemática de um anticorpo mostrando suas duas porções variáveis (variable region) responsáveis pela detecção do antígeno e sua porção conservada (constant chain). Em (b) uma representação de como os anticorpos podem ser utilizados em pesquisa. O antígeno, representado em verde, é reconhecido pelas porções variáveis de um anticorpo específico produzido contra ele. A presença do complexo antígeno-anticorpo é reconhecida por um segundo anticorpo capaz de reconhecer a porção conservada do primeiro. Este segundo anticorpo carrega um marcador em sua própria porção conservada, responsável por emitir algum tipo de sinal mostrando que o complexo [antígeno desejado + anticorpo primário] estava presente (ou nada é detectado, mostrando que não havia o antígeno desejado ali). Em (c) um exemplo prático mostrando células com DNA corado de vermelho e proteínas virais detectadas por um anticorpo que emite luz verde. O quadro da esquerda mostra células não infectadas (sem vírus, logo sem emissão de luz verde) enquanto o da direita mostra células infectadas (com a presença do vírus detectada indiretamente pela luz verde emitida pelo anticorpo secundário que reconheceu o anticorpo primário que estava ligado ao vírus).

Os anticorpos são comumente utilizados em vários tipos de pesquisa e aplicações: determinação da localização celular de proteínas (da própria célula ou não, como na Figura 1c) ; detecção de proteínas em amostras diversas (como por exemplo para diagnósticos) ; neutralização de alvos específicos e muitas outras aplicações. Os anticorpos utilizados em pesquisa podem ser policlonais (anticorpos diferentes que reconhecem um mesmo antígeno) ou monoclonais (anticorpos idênticos que reconhecem o mesmo antígeno), cada um com suas vantagens e desvantagens em relação a aplicações. As formas tradicionais de se produzir estes tipos de anticorpos diferem entre si, mas em ambos os casos animais de laboratório (normalmente camundongos, ratos, coelhos e bodes) precisam ser inoculados com o antígeno para o qual os anticorpos deverão se ligar. Depois da inoculação os animais precisam ser mantidos nos laboratórios tempo suficiente para que a resposta imune ocorra [3]. Durante este tempo os animais normalmente recebem mais doses do antígeno e passam por coleta de soro periódica, sendo que o processo completo pode durar meses [4].  As empresas que produzem anticorpos precisam então lidar com a preparação de antígenos, manutenção de animais (inoculados ou não) e seu sacrifício para obtenção do produto final. Não são tarefas fáceis, existem muitas regulações a serem seguidas, e a recompensa é participar de um nicho de mercado bilionário.

O catálogo de anticorpos da Santa Cruz possui mais de 70.000 anticorpos diferentes (20.000+ monoclonais e 51.000+ policlonais) [5]. Seus produtos são utilizados por laboratórios de todo o mundo, e certamente contribuíram para o avanço de várias áreas da pesquisa básica e aplicada. Como a empresa está situada nos EUA, era de se esperar que o rigor com controle de qualidade e na atenção com as regulações relacionadas a cuidados com os animais deveriam ser grande. Mas parece que este não é o caso. Lembro-me de precisar comprar anticorpos durante meu doutorado sanduíche, e meu chefe recomendou que não utilizássemos os produtos da Santa Cruz. Pensei que era uma peculiaridade dele, mas hoje vejo que na verdade reclamações em relação à qualidade dos produtos são frequentes [6,7]. Acusações de violações dos direitos dos animais, e multas por elas, não são novas para a Santa Cruz. Existem relatos de animais encontrados doentes, com mordidas de cobras ou coiotes, de galpões cheios de animais não declarados durante as fiscalizações e até mesmo de milhares de animais desaparecendo dos registros [8,9,10]! A empresa declarou que “não admite nem nega” as violações dos direitos dos animais.

A multa recebida é a maior já dada pelo Departamento de Agricultura dos EUA para este tipo de crime, e junto com a maior divulgação do caso pode ajudar a mudar a forma anti-ética de se pensar em cortar custos para obter mais lucro. Acredito que a grande maioria de quem ficou sabendo deste caso, ou que está lendo sobre ele neste texto agora, concorda que as atitudes da empresa são um absurdo e que ela mereceu a punição. Alguns pesquisadores já consideram não comprar mais produtos da empresa, o que pode trazer problemas de reprodutibilidade em experimentos a curto/médio prazo, mas que certamente mostra uma preocupação com ética em pesquisa [1,8]. A tendência de boicotar empresas que agem fora de certos padrões éticos não é novidade e acontece em vários segmentos, como nos boicotes a marcas de roupas que supostamente usam trabalho escravo ou a chocolates que supostamente usam cacau extraído por mão de obra infantil. Mas o boicote completo a produtos gerados com o uso de animais é praticamente impossível. Claro que alguns produtos como cosméticos podem deixar de ser usados sem problemas para a população, mas outros como medicamentos ou vacinas ou procedimentos médicos são essenciais e dificilmente, imagino, alguém se recusando a usá-los porque seu desenvolvimento causou sofrimento a animais de laboratório.

Após ler sobre o caso da Santa Cruz resolvi escrever aqui questionando até onde é “correto” causar sofrimento para um animal em troca de vantagem para um humano. Quando o assunto é uso de animais em pesquisa as opiniões divergem muito, indo de pessoas que defendem o uso indiscriminado de animais tendo como justificativa um bem maior para a humanidade até pessoas que são totalmente contra a despeito dos benefícios. Como não existe uma resposta correta neste caso, irei deixar aqui a minha opinião. Meu ponto de vista é que animais são necessários sim para pesquisa, ou em outras palavras: concordo em trocar o sofrimento de animais não humanos por informações que nos ajudem a compreender sistemas biológicos. Mas com uma grande ressalva: que o uso de animais seja bem planejado e bem feito. Já presenciei situações deploráveis de falta de planejamento e de controle no uso de animais em pesquisa, levando a gastos enormes de dinheiro público e a sofrimento desnecessário. Existem regulamentos e órgãos reguladores que objetivam o uso racional e a redução de sofrimento animal, que se seguidos (e se fizerem seu papel) resultam em ganho de qualidade de vida animal e dos resultados obtidos com eles.

Agora saindo do tema de animais utilizados em pesquisa e pensando de uma forma mais geral: já pararam para pensar na qualidade de vida dos vários tipos de animais usados por humanos para outros fins? Humanos têm uma péssima reputação quando consideramos a qualidade de vida de animais, sejam eles selvagens ou domesticados. Somos apontados como culpados por grandes massacres e como agentes de extinção de varias espécies. Somos naturalmente tão gananciosos e cruéis que entre a grande lista de espécies extinguidas por nós estão até mesmo nossos parentes mais próximos (outros hominídeos). De um primata onívoro sem significância na África saltamos de repente para o topo da cadeia alimentar e nossa dispersão pelo planeta trouxe uma onda de morte e destruição tão grande que o destino mais provável é que em breve nos extinguiremos também. Para quem quiser saber mais sobre nossa história e seu impacto no planeta recomendo um dos livros que mais me influenciou na vida: “Uma Breve Historia da Humanidade” escrito por Yuval Harari [11]. O autor também oferece um curso online gratuito pela plataforma Coursera e recomendo ambos (principalmente o curso, que é mais completo do que o livro) para qualquer Homo sapiens que esteja lendo este texto. Garanto que ninguém vai perder tempo lendo/ouvindo as discussões dele, que certamente mudarão a forma de ver o mundo de quem prestar atenção.

Um dos vários temas abordados pelo Harari é exatamente a qualidade de vida dos animais utilizados para satisfazer os humanos. Desde que nossa espécie começou a experimentar com uma vida sedentária e com a domesticação de plantas e animais, algumas espécies se tornaram muito numerosas. Por exemplo: Galinhas, porcos e bovinos (ou sua carne e derivados) são encontrados no mundo inteiro, e os “usamos” sem pensar muito de onde vieram e o que passaram para chegar ali. Pensando em números, vejam a Figura 2 abaixo. Em número de indivíduos existem 3,6 vezes mais animais domesticados no mundo do que humanos, e a biomassa (peso total) desses animais eh 2,3 vezes maior do que a de toda a humanidade  junta [12-14]!

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Figura 2: Estimativas da quantidade de animais no mundo. Em (a), total de indivíduos estimados para 2030. Em (b), biomassa total em toneladas.

Simplisticamente podemos pensar que esses animais estão melhores do que estariam na natureza. Vivem uma vida sem predadores (exceto quando os matamos no final, obviamente), com abrigo, alimento, com proteção a doenças e deixando um número muito maior de descendentes do que deixariam se estivessem livres. Mas não é bem assim. Mesmo provendo estes animais de tudo o que eles necessitam para ficarem vivos tempo suficiente até serem mortos para nossa conveniência, os ambientes artificiais onde eles são mantidos não fornecem os estímulos emocionais e sociais que eles necessitam para vidas plenas [12]. As condições de vida deles são miseráveis a ponto de fazer pessoas pararem de consumir produtos vindos destes animais ao presenciar parte do sistema. Espaços confinados, comida artificial, doenças degenerativas, densidades populacionais muito acima do normal, uma vida de gravidez (no caso da indústria do leite) e separação das crias constante, surtos de doenças e processos de abatimento prolongado são apenas alguns dos muitos sofrimentos aos quais eles são submetidos. Conseguimos suprir estes muitos bilhões de animais materialmente com tudo o que precisam: abrigo, comida, proteção (exceto contra nós mesmos). Mas os privamos de todas suas necessidades sociais, evolutivas e emocionais. E isto sem considerar nosso impacto para animais selvagens: seja pela morte direta através de caça ou morte indireta através de destruição de habitats ou introdução de doenças. O resultado disto tudo é sofrimento em uma escala nunca antes vista neste planeta, o que pode ser até considerado o pior crime já cometido pela humanidade [12]!

A primeira vista pode parecer contraditório pensar em uma sociedade cada vez mais atenta a valores éticos e morais permitir algo deste tipo. Mas outra característica muito importante para nós humanos é conseguir acreditar em contradições. E não estou sendo irônico, pois foi com essa habilidade que demos o passo além dos outros hominídeos e começamos a nossa dominação do mundo (novamente, leiam mais sobre isso no livro do Harari [11]). Então é perfeitamente plausível pensar em humanos completamente contra uso de animais de laboratório comendo carne com queijo em um churrasco, mesmo que o sofrimento dos bovinos que deram origem à comida deles seja igualável ou até maior do que eles querem evitar para os camundongos/coelhos/bodes/beagles/etc. A diferença está apenas no que o sofrimento resultou: alimento ou conhecimento para nossa espécie. Ou quantos de vocês começaram este texto achando um absurdo os maus tratos a animais pela Santa Cruz mas nunca pararam para pensar na vida que os animais de criação levam até serem sacrificados?

Então a mensagem final aqui é que o sofrimento animal faz parte da nossa cultura, quer que concordemos ou não. E que cada um traça uma linha (imaginária obviamente) separando o que é um absurdo do que é aceitável. Não existe uma saída fácil nem rápida, e para ser sincero a maior parte da humanidade nem deve achar que necessitamos de uma saída. Algumas pessoas acabam optando por parar de consumir qualquer produto de origem animal. Apesar de ser uma atitude “nobre”, isto não resolve o problema imediatamente. Afinal para cada um que toma esta atitude existem muitos outros Homo sapiens não se preocupando com esta questão. Sem contar que com o aumento do número de humanos no planeta a demanda de produção de alimento para suprir nossas necessidades aumentou. Consequentemente aumentou-se também a quantidade de animais domesticados e o tamanho das áreas de cultivo, resultando em mais sofrimento e mais impacto ambiental. O foco é quase sempre em produzir mais e se escuta bem pouco sobre produzir menos ou reduzir o consumo. Talvez isto seja esperado já que medidas de longo prazo não são muito bem vistas pelo sistema politico (pra que começar um projeto que vai dar resultados em 50 anos se ele não vai render votos no ano seguinte?), e políticas voltadas para redução de consumo ou controle de natalidade são impopulares. Mas algo precisa ser feito, seja pelo lado puramente voltado para ética e redução de sofrimento ou seja pelo lado mais egoísta de se querer evitar nossa extinção (se é que ainda dá tempo). Ao longo do tempo várias pessoas já chamaram a atenção para isto, e caso tivessem sido ouvidas nossa situação estaria bem melhor agora. Por exemplo, em 1959 Aldous Huxley já tratava do tema em seu livro “Regresso ao admirável mundo novo[15]. Quando o livro foi escrito a população humana era menos da metade do que é hoje, então não podemos pensar que demoramos demais a perceber o problema. Termino este texto então com as palavras dele: “Analisemos o problema da superpopulação. A quantidade sempre crescente de seres humanos pesa cada vez mais sobre os recursos naturais. O que fazer?

O que vocês acham disto tudo? Tem alguma resposta para a pergunta do Huxley? Sugestões ou querem discutir alguma coisa? Deixem comentários abaixo!


Referências:

[1]http://www.nature.com/news/us-government-issues-historic-3-5-million-fine-over-animal-welfare-1.19958
[2] https://awic.nal.usda.gov/government-and-professional-resources/federal-laws/animal-welfare-act
[3] http://ilarjournal.oxfordjournals.org/content/46/3/269.full
[4] https://www.thermofisher.com/fi/en/home/life-science/antibodies/custom-antibodies/custom-antibody-production/custom-polyclonal-antibody-production/custom-rabbit-polyclonal-antibody-production-protocols.html
[5] http://www.scbt.com/research/primary_antibodies_mammalian.html
[6] http://blogs.sciencemag.org/pipeline/archives/2016/05/23/trouble-at-santa-cruz-biotechnology
[7] https://www.glassdoor.com/Reviews/Santa-Cruz-Biotechnology-Reviews-E39955.htm
[8] http://www.newyorker.com/tech/elements/valuable-antibodies-at-a-high-cost
[9]http://www.nature.com/news/discovery-of-goat-facility-adds-to-antibody-provider-s-woes-1.12203
[10} http://www.nature.com/news/thousands-of-goats-and-rabbits-vanish-from-major-biotech-lab-1.19411
[11] Sapiens: Uma Breve História da Humanidade ; Yuval Noah Harari. http://www.ynharari.com/sapiens/short-overview/
[12] http://www.ynharari.com/ecology/articles/the-worst-crime-in-history/
[13] http://www.fao.org/docrep/005/y4252e/y4252e07.htm
[14] http://www.fao.org/english/newsroom/news/2002/7833-en.html
[15] Regresso ao Admirável Mundo Novo ; Aldous Huxley
Fonte das figuras: Wikimedia Commons (https://commons.wikimedia.org/), exceto para figura 1c (arquivo pessoal) e gráficos (feitos a partir de dados oficiais).
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