Mulher Brasileira: Bela, Brilhante e do Lab

Todos nossos leitores sabem que o foco do blog Buteco da Biologia é fazer divulgação científica de maneira responsável, baseando nossos artigos no que há de mais recente na literatura científica e tentando passar isso para o público de um modo que lhes seja fácil de compreender. É notório, ainda, que este blog não se posicionou, de nenhuma forma, acerca do momento político do Brasil, pois não achamos que cabe este tipo de discussão aqui, bem como porque acreditamos que devemos respeitar a opinião de cada um, assim como o direito de livre expressão de qualquer pessoa.

Contudo, no dia 18 de abril de 2016, apenas um dia após a aprovação da admissibilidade do processo de impeachment contra a Presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados, a Revista Veja publicou uma reportagem intitulada: “Marcela Temer: bela, recatada e ‘do lar’”, exaltando estas qualidades da esposa do Vice-Presidente da República Michel Temer, como se fossem características primordiais e exemplares a serem seguidas por toda e qualquer mulher. O blog Buteco da Biologia repudia o comportamento machista da Revista Veja, visto que o papel da mulher na nossa sociedade não pode ser resumido a isto e que observamos, diariamente, que várias destas mulheres (independentemente de serem “do lar” ou não) contribuem, à sua maneira, para construírem um país melhor. Sem elas, certamente, muitos dos avanços que temos o prazer de desfrutar hoje em dia, seriam impossíveis. Sem elas, a ciência nunca teria chegado ao patamar que chegou hoje.

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Figura 1 – Mulheres nas Ciências Biológicas: da esquerda para a direita e de cima para baixo: Bertha Lutz, Marta Vannucci, Tábita Hunemeier, Graziela Barroso, Ruth Nussenzweig, Suzana Herculano-Houzel, Alline Campos, Johanna Döbereiner, Daiana Ávilla, Erna Kroon e Rosalind Franklin. Fonte: Google Images

De fato, se fôssemos escrever um artigo sobre a contribuição individual de cada mulher que tenha dedicado sua vida a fazer ciência, a nossa postagem seria sem fim. Basta uma simples olhada para a história científica para vermos que importantes contribuições no campo da radioatividade (Marie Curie, franco-polonesa), na estrutura da molécula de DNA (Rosalind Franklin, britânica) e na biodiversidade brasileira (Bertha Lutz, brasileira) tem o dedo destas brilhantes mulheres. Inclusive, um dos vencedores do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia do último ano é a cientista Youyou Tu, por sua contribuição na descoberta de uma nova terapia contra a malária.

Este blog tem planejado duas postagens a serem lançadas em breve: uma a respeito de uma publicação sobre intragenia, do grupo do pesquisador Carlos Bloch Jr. (Embrapa), e outra sobre o vírus da gripe H1N1. Entretanto, em face dos recentes acontecimentos e como forma de homenagear as cientistas brasileiras que fogem do “modelo padrão da mulher brasileira” difundido pela Revista Veja, o Buteco da Biologia resolveu adiar o lançamento destas duas matérias e fazer, em seu lugar, um pequeno resumo sobre as cientistas brasileiras pioneiras na pesquisa em Biologia e que mostraram, desde cedo, que lugar de mulher também é no laboratório.

TOP 5 – PIONEIRAS DAS CIÊNCIAS BIOLÓGICAS (baseado no documento “Pioneiras da Ciência no Brasil” disponível na página do CNPq):

 

  • Bertha Lutz (Bióloga; 1894-1976) – Bertha Lutz foi uma pesquisadora do Museu Nacional do Rio de Janeiro tendo atuado, principalmente, como zoóloga especializada em anfíbios. Ela alcançou grande reconhecimento internacional como cientista, tendo descrito várias espécies animais como Liolaremus lutzae e Paratelmatobius lutzii. Bertha também contribuiu de forma significativa para a pesquisa em botânica, tendo organizado sistematicamente o primeiro herbário do seu pai e também pesquisador Adolpho Lutz e publicado o importante estudo intitulado “Estudos sobre a biologia floral da Magnifera indica L.”. Além de sua atuação como cientista, ela também teve grande importância na vida política do Brasil, como ativista do movimento feminista brasileiro, havendo contribuído, de forma significativa, para a instituição do direito das mulheres ao voto em 1932 [1,2].
  • Graziela Barroso (Botânica; 1912-2003) – Graziela Barroso foi cientista e docente na Universidade de Brasília (UnB), tendo trabalhado na catalogação de diversas plantas do Brasil, sendo considerada a maior especialista nesta área. Graziela é autora de dois dos mais importantes livros na botânica brasileira: “Sistemática de Angiospermas do Brasil” e “Frutos e Sementes”. Além de ter adquirido reputação internacional por sua excelência na Botânica, ela chegou a ser eleita para a Academia Brasileira de Ciências em 2003; contudo, faleceu menos de um mês antes de tomar posse. Em sua homenagem, diversos pesquisadores atribuíram a novas espécies de planta descobertas o seu nome, tais como Dorstenia grazielae e Diatenopteryx grazielae [1,3].
  • Johanna Döbereiner (Agrônoma; 1924-2000) – Johanna Döbereiner nasceu na República Tcheca em 1924, tendo se naturalizado Brasileira em 1956, e desenvolveu importantíssimos trabalhos acerca da fixação biológica de nitrogênio, o que levou a uma redução significativa no consumo de fertilizantes nitrogenados nas plantações de soja do Brasil e à economia significativa nos custos de produção dos seus grãos, fazendo do Brasil o país com o menor custo de produção da soja no mundo. Os seus trabalhos com a associação de bactérias fixadoras de nitrogênio do gênero Spirillum, desenvolvidos na EMBRAPA, foram importantes, também, para o desenvolvimento de programas de produção de biocombustíveis e cultivo da cana-de-açúcar no Brasil, como o PROALCOOL. Johanna foi vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências em 1995 e, devido aos seus esforços em reduzir o uso de fertilizantes agrícolas e nos custos da plantação, ela chegou a ser indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 1997, embora não tenha sido agraciada com tal honraria [1,4].
  • Marta Vannucci (Ecóloga; 1921-) – Marta Vannucci foi bióloga, atuando com ênfase em oceanografia ecológica, tendo sido uma das fundadoras e a primeira mulher diretora do Instituto de Oceanografia da USP. Marta trabalhou, inicialmente, com ecossistemas de mangue, tendo ajudado, posteriormente, a criar um atlas, junto mais de 300 outros cientistas do mundo, descrevendo os ecossistemas de mangue existentes no globo. Sua principal área de atuação, no entanto, esteve relacionada ao estudo do plâncton marinho, tendo sido uma das primeiras pessoas a estudar e ajudar a entender a oceanografia do Oceano Índico, quando atuou como pesquisadora na Índia a convite da UNESCO. Atualmente, Marta é professora aposentada da USP, Sênior Expert in Marines Science da UNESCO e Honorary advisor do International Society of Mangrove Ecosystems de Okinawa, no Japão [1,5].
  • Ruth Nussenzweig (Parasitologista; 1928-) – Ruth Nussenzweig é parasitóloga, tendo iniciado sua vida acadêmica com o Dr. Samuel Pessoa no Departamento de Parasitologia da USP. Inicialmente, Ruth trabalhou com o parasito causador da Doença de Chagas Trypanosoma cruzi, na tentativa de reproduzir os dados encontrados anteriormente por cientistas russos do uso do mesmo para o tratamento e cura do câncer. Embora os resultados deste estudo tenham se mostrados negativos, durante seus experimentos Ruth e seus colegas conseguiram mostrar que o uso de violeta genciana ao sangue contaminado com o parasita previne a transmissão da doença. Após trabalhar um período como docente na Universidade de São Paulo e cursar o pós-doutorado na França, Ruth deixa o Brasil em 1964 devido ao período conturbado pelo qual passava o país, logo após o estabelecimento do Regime Militar. Ela passa, então, a integrar o Centro Médico da New York University, onde tornou-se Professora Titular no Departamento de Parasitologia Médica e Molecular. Nos anos seguintes, Ruth dedicou-se à busca por uma vacina eficaz contra a malária, estabelecendo redes de colaboração, inclusive com pesquisadores da FIOCRUZ. Devido à relevância do seu trabalho como cientista, Ruth Nussenzweig foi condecorada, em 1998, com a Ordem Nacional do Mérito Científico classe Grã-Cruz pela Presidência da República [1,6].

Dentre as cientistas brasileiras de grande renome, tanto no cenário nacional quanto internacional, que atuam atualmente nas mais diversas áreas da Biologia, podemos citar [7,8]:

  • Alline Campos (Universidade de São Paulo), que atua pesquisando a produção de medicamentos com efeitos colaterais reduzidos para pacientes que sofrem de ansiedade e depressão.
  • Daiana Ávilla (Universidade Federal do Pampa), que trabalha com o desenvolvimento de uma nova terapia para a esclerose lateral amiotrófica.
  • Tábita Hunemeier (Universidade de São Paulo), que faz pesquisa na área de Genética e Biologia Evolutiva, trabalhando, atualmente, na elucidação dos caracteres que diferenciam a população do continente americano daquelas dos demais continentes.
  • Suzana Herculano-Houzel (Universidade Federal do Rio de Janeiro) é uma neurocientista, cuja principal área de atuação é a neuroanatomia. Suzana é responsável pelo desenvolvimento de um método para contagem da quantidade de neurônios no cérebro humano e de outros animais, bem como por descrever a relação da espessura e área do córtex cerebral com o número de giros do cérebro. Ela também atua com divulgação cientifica de qualidade há muitos anos, e faz análises críticas bem interessantes sobre os vários problemas enfrentados por cientistas brasileiros (clique aqui para acessar o blog dela)[9].
  • Erna Kroon (Universidade Federal de Minas Gerais) é uma virologista, que atualmente atua desenvolvendo pesquisa sobre os Vírus da Dengue, Vaccinia Bovina e aqueles capazes de causar infecções no sistema nervoso central. Erna foi responsável por grandes avanços no estudo de surtos causados por Vaccinia vírus no Brasil, é reconhecida pela sua capacidade em formar novos cientistas e já fez parte da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) [10, 11].

Além destas mulheres que contribuíram (e contribuem) de forma muito grandiosa para a ciência brasileira, muitas outras continuam dando suas vidas em prol do desenvolvimento das Ciências Biológicas e constituem grande parte da elite intelectual não apenas do nosso país, mas também do mundo. O blog Buteco da Biologia gostaria, também, de deixar sua homenagem e agradecimento à todas as mulheres que continuam lutando pela ciência brasileira e vencendo a cada dia os inúmeros desafios que é ser produtivo nesta área em nosso país, desde as dificuldades em obter financiamentos razoáveis até mesmo por simples questões estruturais das instituições de pesquisa brasileiras.

O nosso blog gostaria de deixar bem claro sua posição de reprovação ao conteúdo machista publicado pela Revista Veja e reitera seu posicionamento de que o lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive nas bancadas dos laboratórios de pesquisa do Brasil.

Assinam esta os Colaboradores do Blog Buteco da Biologia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] – DE MELO, H. P.; RODRIGUES, L. M. C. S. Pioneiras da Ciência no Brasil. Rio de Janeiro: SBPC, 2013.
[2] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Lutz
[3] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Graziela_Maciel_Barroso
[4] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Johanna_D%C3%B6bereiner
[5] – http://www.io.usp.br/index.php/noticias/49-io-na-midia/862-a-mulher-que-navegou-nos-mares-do-mundo-marta-vannucci
[6] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Ruth_Sonntag_Nussenzweig
[7] – http://cientistabeta.com.br/2016/03/08/cientistas-mulheres-poderosas-e-brasileiras-parte-1/
[8] – http://cientistabeta.com.br/2016/03/09/cientistas-mulheres-poderosas-e-brasileiras-parte-ii/
[9] – https://en.wikipedia.org/wiki/Suzana_Herculano-Houzel
[10] – Currículo Lattes da Profa. Erna G. Kroon.
[11] – https://www.ufmg.br/boletim/bol1760/5.shtml

 

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Um comentário sobre “Mulher Brasileira: Bela, Brilhante e do Lab

  1. Se alguém quiser ler mais opiniões e fatos sobre mulheres na ciência, recomendo uma edição especial que saiu em 2013 no site da Nature (em inglês): http://www.nature.com/news/specials/women/index.html . Discute-se igualdade, números, esteriótipos, propostas de mudança… bem interessante, e de fonte confiável.

    Seria bom aproveitar todo o alvoroço causado pela reportagem infeliz da Veja, que deu origem inclusive ao post acima, para parar e pensar um pouco na situação das mulheres brasileiras que trabalham com ciência. No meu caso já vi muita coisa absurda, como por exemplo falta de apoio em situacoes como gravidez. Tanto o medo sempre constante que existe de uma mulher não ser contratada (ou passar no mestrado, doutorado, concurso em situacoes idôneas) caso ela esteja gravida ou queira engravidar. Depois vem a falta de noção das Instituições e Laboratórios, que não apresentam politicas voltadas para gravidas (então elas continuam na rotina normal do lugar, expostas a reagentes perigosos, etc). E depois ainda tem a licença maternidade, que eh de alguns meses para a mãe e 5 dias (ou 20, para pouquíssimos felizardos) para o pai, o que leva a duas coisas: ou a mãe desiste da carreira e de crescer nela ou o filho vai cedo demais para uma creche, para de amamentar, não cria o vinculo ideal que um Homo sapiens deve criar com a cria, e isto tudo pode gerar problemas futuros. Chamei atenção para este ponto (gravidez e cuidado parental) porque vivi uma gravidez no Brasil e agora estou vivendo uma no exterior, e posso dizer que o que acontece no Brasil eh uma piada de muito mal gosto. Talvez no futuro posso ate escrever algo junto da Lara comparando e discutindo as diferenças!

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