Fotografia e arte: o poder da informação visual e sua importância na vida do biólogo

Como seria um mundo sem escrita? E sem internet? As coisas seriam diferentes sem imagens, figuras ou fotos? Como ficaria a comunicação e a troca de informações em um mundo globalizado e com fluxo tão acelerado de dados? Se, nos dias de hoje, ficássemos repentinamente desprovidos destas tecnologias por um motivo qualquer, certamente viveríamos algum tipo de apocalipse global. Nossa cadeia produtiva, sobretudo no meio urbano, foi quase completamente computadorizada e automatizada com auxílio dos avanços na eletrônica e na tecnologia digital, o que nos torna dependentes da capacidade dos computadores de processar informações e integrar os diversos sistemas. Em outras palavras, todas as nossas relações pessoais, nossa construção social, política, cultural e nossa economia baseiam-se na nossa capacidade de comunicação. Sem os meios adequados para isto, ficamos, basicamente, cegos.

Mas nem sempre foi assim. Toda esta história é muito recente. Há pouco mais de 20 anos não dispúnhamos de internet no Brasil. A fotografia foi oficialmente apresentada ao público a menos de 200 anos. A linguagem escrita, um dos passos mais importantes para a vida em sociedade, tem pouco mais que 3000 anos. Então por quê, em um intervalo de tempo tão curto, nos tornamos tão dependentes dos meios de comunicação? O fato é que somos seres visuais. Nossa percepção de mundo é baseada em informações que recebemos e padrões que podemos construir a partir delas. Em geral, nossos sentidos não são os melhores dentro do reino animal. Temos uma olfação ruim e uma audição que deixa a desejar. Não temos linha lateral, órgãos de orientação magnética ou qualquer coisa do tipo. Nós praticamente exploramos o mundo através da visão, ainda que esta não esteja entre as melhores. Talvez este seja um dos motivos pelos quais depositamos tanta confiança neste sentido em especial, e às vezes somos ludibriados por ele.

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“Nós praticamente exploramos o mundo através da visão”. Fotografia de Augusto Gomes (http://augustomilagres.wix.com/)

Apesar dessa limitação sensorial, temos uma característica interessante e raramente vista entre outros animais: podemos fazer abstrações sobre objetos e fatos que observamos. No jargão da simbologia, fazemos conotações (atribuímos significados indiretos) a partir de denotações (algo que se observa diretamente). Isto pode parecer simples, mas depende de uma incrível capacidade de reconhecer padrões e armazenar na memória uma informação secundária associada a eles, de forma que possamos compará-los com seus semelhantes e dissocia-los de outros, tanto na forma literal quanto metafórica. A forma como organizamos estas informações leva a diferentes construções de conhecimento: ciência, arte, política, religião, música, etc. Para a discussão deste artigo, estamos particularmente interessados nos dois primeiros itens.

Mas o que é arte, e o que é ciência? Isto tem sido tema de debate desde que ambos os conceitos foram forjados, talvez uma discussão tão antiga quanto o tema em si. Em tese, ciência seria qualquer forma de adquirir conhecimento sob um método sistematizado, guiado por perguntas e hipóteses, e que seja preferencialmente replicável, testável e passível de falseamento. Já a arte pode ser entendida como um meio ou processo subjetivo de transmissão de ideias. É uma atividade de ordem estética ou comunicativa, realizada por meio de uma grande variedade de linguagens. Note que estes dois campos de conhecimento diferem principalmente pelo método, mas abrem espaço para muitos objetivos convergentes. Neste sentido, fotografia se enquadraria no conceito de arte? As opiniões se dividem. Há quem diga que fotografia não pode ser arte em função da natureza mecânica de captação da imagem. Ela violaria assim duas premissas básicas da arte: a singularidade da obra (não-reprodutibilidade) e a habilidade manual requerida para sua confecção. Outros alegam que o processo de construção da imagem está sujeito à interferência e manipulação do fotógrafo em toda a sua extensão, sendo a fotografia uma forma de arte. Nas palavras do fotógrafo Ansel Adams, “não fazemos uma foto apenas com uma câmera; ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos.” Ou seja, a fotografia seria um processo criativo em que o autor participa ativamente.

E como a fotografia poderia atuar como arte? Ela é extensivamente usada na representação de pessoas, objetos, lugares, situações, emoções, além de ser um instrumento de mobilização social, revolta, expressão pessoal, transmissão de ideias, engajamento político, dentre outros. A fotografia goza de uma liberdade especial ao atuar como arte, uma vez que o compromisso é firmado com os sentimentos do autor, e não com a “veracidade” do assunto. Já no campo científico, a fotografia assume um papel basicamente documental, semelhante ao fotojornalismo, em que a imagem deve retratar com a maior precisão possível as estruturas ou processos que são alvo daquele estudo, aproximando-se ao máximo de como ele foi presenciado pelo fotógrafo.

Porém, nem mesmo a fotografia documental está isenta de armadilhas. Vários parâmetros (ISO, velocidade, abertura, ângulo, balanço de branco, perspectiva, foco, composição, etc) podem ser ajustados de forma a valorizar mais um determinado ponto de vista ou aspecto de interesse. Isso sem falar na forma com que um determinado assunto é abordado (uma pessoa ou animal podem responder de formas diferentes a aproximações distintas). Além dos fatores inerentes à produção da imagem, sua interpretação também será influenciada pelo contexto em que ela foi feita (cultural, social, político, histórico, econômico, ambiental…), do contexto em que ela é lida, do conhecimento prévio do leitor sobre o contexto da foto, e das informações que a acompanham (textos, legendas ou outras fotos, por exemplo). Em suma, os significados atribuídos a uma determinada imagem não são fixos.

A esta altura o leitor já deve estar se perguntando sobre o real papel documental da imagem, já que sua interpretação está sujeita a tantas variáveis. Qual é o limite entre a veracidade e o fictício? Durante muito tempo, a fotografia carregou um enorme peso de ser a representação da realidade, um pacto inexorável com os fatos. Como dizem os ditados populares, “ver é crer”, ou “a câmera nunca mente”. Será? Felizmente, esta associação tem sido desfeita frente a trabalhos de artistas abstratos, de representações fotográficas surrealistas, e também de fotógrafos que se dispõe a mostrar cenas banais sob perspectivas diferentes, colocando em jogo a forma com que julgamos e confiamos em uma imagem. Artistas como Escher, ilusionistas óticos, ou grafiteiros que fazem projeções em 3D, atingiram este objetivo com primazia. O fotógrafo Richard Salkeld resume bem a questão: “a verdade de uma fotografia reside em mostrar a aparência de uma cena, em um determinado momento, de um determinado ângulo, captada por uma determinada câmera com uma determinada lente.”

Chegamos aqui ao ponto principal deste texto – a fotografia é, acima de tudo, uma linguagem, tal como a escrita, a música e a dança. E como qualquer linguagem, a fotografia é escrita com palavras, frases e versos. Ela demanda leitura e interpretação, e é repleta de nuances, metáforas e simbologias. A fotografia transporta, representa ou reconstrói realidades, mas nunca será “A realidade”. E, sendo uma linguagem, ela pode e deve ser usada para transmitir mensagens, inclusive dentro do universo acadêmico e da biologia, sobre os quais a maioria de nós está interessada.

O advento da fotografia digital foi um grande avanço nesse sentido. Ele popularizou e democratizou o uso da fotografia, permitindo que uma avalanche de imagens seja produzida e carregada na web diariamente, por qualquer um, em qualquer lugar. Todos têm uma câmera disponível em segundos no celular, e o registro dos mais variados temas e a documentação em tempo real foram grandemente facilitados. Entretanto, a cultura de massa leva também à banalização da imagem. Poucos de nós pensam um pouco antes de dar um click, e ainda menos pessoas pensam na mensagem transmitida por aquele click. Apesar da maior facilidade de acesso e da produção de um número sem igual de fotos, este material, em geral, tem pouca serventia. Não se escreve um texto sem antes pensar nas palavras. Não se pinta algo sem que se queira transmitir uma mensagem ou sentimento. O mesmo se sucede com a fotografia. É interessante que sejamos mais cautelosos nesse sentido, e que passemos a refletir mais sobre o papel da imagem nas nossas vidas e o que pretendemos transmitir com uma dada imagem.

Essa discussão é particularmente importante para o biólogo quando consideramos a variedade de meios em que a fotografia é utilizada: registro dos seres vivos, seu comportamento, seu hábitat, estruturas anatômicas, fisiologia, interações, processos ecológicos e evolutivos, monitoramento e estudos aplicados, ilustração de publicações, divulgação científica, educação ambiental, ações de conservação, etc. A ferramenta é também utilizada em uma grande amplitude de escalas, do micro ao macro: células, tecidos, indivíduos, populações, comunidades, ecossistemas e até imagens da biosfera podem ser captadas através de satélites. Sem dúvida são usos distintos da fotografia que envolvem, inclusive, equipamentos e técnicas diferentes.

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Cervo do Pampa. Fotografia de Augusto Milagres (http://augustomilagres.wix.com/)

Proponho que, de forma semelhante à pesquisa científica, onde sempre elaboramos uma pergunta antes de montar um projeto, façamos o mesmo na fotografia. Qual é a minha pergunta? O que pretendo dizer com esta imagem? Se não somos capazes de responder a isto (ou ao menos de nos fazer este questionamento) provavelmente o tempo gasto fotografando algo foi em vão. Uma imagem sem propósito não tem serventia no meio científico. Ela pode até ter algum valor artístico, mas ainda sim deve, no mínimo, provocar nossos pensamentos.

Como investigadores da vida, devemos, ainda, ter um trabalho de documentação mais cuidadoso e apresentar um domínio mínimo dos conceitos e técnicas fotográficas. Por quê, em geral, gastamos tanto tempo lendo e escrevendo, mas dedicamos tão pouco tempo na produção das nossas fotos ou ilustrações? Frequentemente as imagens agregam um valor sem igual aos nossos trabalhos, sintetizando uma enorme quantidade de informações num espaço reduzido. Elas podem ser complementares a gráficos, tabelas e textos, ou, por vezes (dependendo, obviamente, do escopo do trabalho), até substituí-los! Muitos dos grandes naturalistas do século XIX eram também exímios ilustradores, pois reconheciam a importância das gravuras para seus trabalhos. Por quê esta prática foi perdida? Só temos a ganhar explorando esse poderoso instrumento, afinal, “uma imagem diz mais que mil palavras”!


Referências Bibliográficas

Barthes, R. 1980. A câmara clara. Ed. Nova Fronteira, 3ª ed.
Salkeld, R. 2014. Como ler uma fotografia. Ed. Gustavo Gili.
http://www.escolapublicadefotografia.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ciência
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