A história por trás do Zika vírus

Talvez seja muito clichê que o tema do primeiro post do blog seja sobre o Zika vírus. Contudo, dada a importância do tema e quantidade gigantesca de boatos relacionados aos casos de microcefalia que têm surgido, um esclarecimento maior do assunto se faz necessário. Façamos, então, uma breve introdução sobre o que é o Zika vírus, suas origens, como é transmitido e como ele passou de um agente infeccioso virtualmente desconhecido para o causador da mais recente pandemia.

O vírus causador da Zika foi isolado, pela primeira vez, de amostras de sangue de macacos Rhesus (Macaca mulatta) durante uma expedição promovida por cientistas britânicos e americanos na tentativa de isolar amostras do Vírus da Febre Amarela na Floresta de Zika, em Uganda, no ano de 1947. Ao vírus isolado de um destes macacos deu-se o nome de Zika vírus 766 (Zika em relação à floresta e 766 relativo à numeração do espécime do qual o vírus foi isolado) [1].

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Entrada da Floresta de Zika, em Uganda, local de isolamento da primeira amostra contendo o Zika vírus no sangue de Macacos Rhesus contaminados. Fonte: http://i.ndtvimg.com/

Na década de 1950, foi reportado que este vírus podia ser transmitido através da picada de mosquitos e, pela primeira vez, que era capaz também de infectar seres humanos, causando alguns sintomas muito semelhantes àqueles encontradas para a Febre Amarela, como a presença de febre e icterícia [2]. Nos quase 60 anos que se seguiram à primeira notificação de que o Zika vírus era capaz de infectar seres humanos poucos casos de novos eventos de infecção na nossa espécie foram registrados na literatura científica, como os que ocorreram na Nigéria (1971), em Serra Leoa (1972) e na Malásia (1969), sendo este último o primeiro registro de contaminação fora do continente africano [1].

Embora tenha passado quase despercebido, o salto do Zika vírus do continente africano para a Ásia em 1969 foi crucial para que sua disseminação começasse a partir dos anos 2000. De fato, em 2007, cerca de 74% da população da pequena Ilha Yap, localizada no Oceano Pacífico, apresentou fortes indícios de infecção por este vírus em testes de laboratório. Em seguida, o vírus se espalhou para as Filipinas (2012) e de lá para a Polinésia Francesa (2013), onde uma grande epidemia de Zika foi registrada, o que acabou ajudando na obtenção de uma importante informação: modificações nos genes do vírus fizeram com que ele tivesse evoluído e dado origem a uma nova linhagem. Esta nova variação do vírus, denominada de linhagem Asiática, teria se originado a partir da linhagem Africana, a primeira a ser isolada em 1947. É interessante notar que, depois do surto na Polinésia Francesa em 2013, o vírus da Zika chegou rapidamente ao continente americano, primeiro na Ilha de Páscoa (2014) e posteriormente no Brasil em 2015, onde acredita-se que o vírus tenha chegado por meio de viajantes infectados da Polinésia Francesa durante a Copa do Mundo [1]. A partir daí, o vírus espalhou-se pelas Américas, totalizando mais de 35 países em todo o planeta com casos registrados da doença [3].

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Países no qual a transmissão do Zika vírus foi identificada, com destaque para a grande quantidades de países localizados na América Latina (em roxo). Fonte: CDC/EUA.

No Brasil, o vírus da Zika é transmitido por mosquitos da espécie Aedes aegypti, o mesmo que atua como vetor para outras doenças, como a Febre Amarela, a Dengue e a Febre Chikungunya. As estimativas atuais da Organização Pan-Americana da Saúde dão conta de que aproximadamente 1,3 milhão de pessoas já foram infectadas pelo Zika vírus. Contudo, a identificação precisa de todos estes casos é muitas vezes problemática; em primeiro lugar, a grande maioria dos casos (mais ou menos 80%) é assintomática (ou seja, não há manifestações de sintomas) e quando existem, eles são bastante semelhantes àqueles da dengue (febre, vermelhidão, coceira, dores articulares). Além disso, testes rápidos, altamente precisos e baratos para o diagnóstico diferencial do Zika vírus (que é “aparentado” com os vírus da Dengue e da Febre Amarela) não estão disponíveis;  assim, apenas alguns poucos centros especializados possuem os recursos necessários para a realização do diagnóstico [1].

O que tem chamado a atenção da imprensa mundial, no entanto, não é a similaridade dos sintomas da Zika com aqueles descritos para a Dengue, mas sim os possíveis efeitos que a infecção pelo Zika vírus pode causar no sistema nervoso dos pacientes contaminados e, principalmente, no cérebro dos fetos de gestantes que contraíram a doença. Em adultos, os sintomas neurológicos mais comumente associados à infecção pelo Zika vírus é a Síndrome de Guillan-Barré, que já foi identificada em pacientes infectados na Polinésia Francesa (durante o surto de 2013) e, mais recentemente, em países da América Latina (para mais informações a respeito desta síndrome, clique aqui). Enquanto isso, em recém-nascidos têm sido sugerida uma relação entre os casos de Zika vírus identificados com um aumento na notificação de casos de microcefalia [1, 4, 5].

O Ministério da Saúde do Brasil (MS) sugeriu inicialmente essa relação com base nos dados oficiais de casos de microcefalia que foram reportados desde de 2010 até hoje. De fato, entre 2010 e 2014 foram reportados oficialmente pelo MS menos de 200 casos de microcefalia anualmente em todo território brasileiro. No entanto, em 2015 e até o dia 13 de fevereiro de 2016, 5280 casos suspeitos de microcefalia e/ou outras mal-formações do cérebro causadas por possíveis infecções congênitas (da mãe para o feto) foram notificadas ao MS. Destes, 508 casos foram confirmados, enquanto outros 3935 ainda aguardam investigações. Dentre os casos de microcefalia confirmados, exames laboratoriais apontaram que, em mais de 40 casos, os recém-nascidos foram positivos para infecção pelo Zika vírus.

Até o presente momento, no entanto, não existe 100% de certeza de que o Zika vírus seja realmente o responsável pelo surto de microcefalia, ao ponto que, em reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo, há um questionamento por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) da certeza dada pelo Ministério da Saúde de que estes casos teriam relação com a infecção pelo Zika vírus, já que o número de casos de microcefalia notificados nos anos anteriores no Brasil estariam subestimados. Diante disso, alguns pesquisadores ainda encontram-se céticos a este respeito, afirmando que mais estudos são necessários para que haja esta confirmação e que fatores externos, como a subnotificação por parte do MS e outros fatores socioeconômicos possam, também, explicar o aumento na notificação dos casos de má-formações congênitas.

Não obstante, artigos científicos publicados recentemente forneceram fortes evidências de que o Zika vírus pode estar, de fato, implicado com o aumento significativo nas notificações dos casos de microcefalia que estão ocorrendo no nosso país. Em um destes estudos, conduzido no CDC/EUA, surgiram evidências de que o vírus tenha sido capaz de infectar o cérebro e a placenta de dois recém-nascidos e outros dois fetos de mães que sofreram aborto espontâneo [6]. Em seguida, dois estudos produzidos pelo grupo da pesquisadora Ana Maria B. de Filippis, da FIOCRUZ/RJ, demonstraram a presença do Zika vírus no líquido amniótico de grávidas que apresentaram, durante a gestação, sintomas de infecção pelo Zika [7]. Além disso, exames de ultrassom mostraram que os fetos destas gestantes apresentavam fortes indícios de microcefalia [8].

Talvez o estudo mais importante que tenha fornecido a melhor evidência a favor do Zika vírus como agente causador da microcefalia em bebês seja o trabalho publicado no New England Journal of Medicine [9]. Neste artigo, os pesquisadores conseguiram demonstrar, por meio de autópsia do cérebro do feto de uma gestante que teria se contaminado com o vírus em Natal, não somente a existência clara da microcefalia, mas também a existência do Zika vírus no cérebro deste indivíduo. E mais: análises da história evolutiva deste vírus mostraram que as amostras de Zika encontradas no Brasil estariam mais “aparentadas” com a linhagem Asiática, indicando que as mudanças sofridas pelos genes do vírus ao longo dos últimos 50 anos podem ter sido essenciais para que o Zika pudesse se tornar mais perigoso aos seres humanos.

Por fim, outros dois estudos mostraram, em experimentos realizados apenas com neurônios e “pequenos cérebros” produzidos em laboratório (os chamados experimentos in vitro), que o Zika vírus é capaz de impedir o crescimento dos neurônios, além de matá-los [10]. Já no estudo com estes “pequenos cérebros”, conduzidos pelo Prof. Stevens Rehen da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), seu grupo conseguiu demonstrar que estes organóides (pois não são cérebros de verdade) ficavam menores quando infectados pelo vírus [11].

Embora estes trabalhos não confirmem com 100% a relação entre o Zika vírus e o aumento na notificação de microcefalia no Brasil, eles fornecem indícios muito fortes de que este seja, de fato, o caso. É bem possível que, muito em breve, uma confirmação concreta desta relação seja estabelecida.

Em adição, estas pesquisas ajudam a derrubar uma série de boatos que surgiram na internet como sendo a possível causa do aumento nas notificações de microcefalia. Um deles afirmava que a causa da microcefalia seria um lote vencido da vacina contra a Rubéola administrada em gestantes. Mas ao que parece, as pessoas que ajudaram a difundir esta história esqueceram-se de verificar que, segundo recomendações do Ministério da Saúde e da OMS, grávidas NÃO PODEM SER VACINADAS CONTRA A RUBÉOLA, em hipótese alguma (para ler mais sobre o assunto, clique aqui).

Outro boato levantou a ideia de que mosquitos machos da espécie Aedes aegypti, que foram geneticamente modificados, seriam os responsáveis pelos casos de microcefalia. Novamente, as informações não possuíam nenhum fundamento; primeiro porque os mosquitos que picam os seres humanos são as fêmeas; segundo, pois os machos transgênicos de Aedes serviam, na verdade, a um nobre propósito. Estes mosquitos, ao cruzarem com as fêmeas, geram larvas do mosquito que são inviáveis, não conseguindo se desenvolver em mosquitos adultos. Logo, esta se trata de uma estratégia (ainda em fase de testes) de COMBATE AO MOSQUITO DA DENGUE, ZIKA E CHIKUNGUNYA (para ler mais sobre este boato, clique aqui).

Esperamos que as informações apresentadas no nosso primeiro post sejam úteis para que vocês, nossos queridos leitores, possam saber um pouquinho sobre a história do Zika vírus e o que tem sido feito atualmente pelos cientistas para compreender melhor quais as manifestações que este vírus causa nas pessoas que se tornam infectadas. Em especial, os cientistas tem focado em verificar se há, de fato, alguma relação entre a infecção pelo Zika e a ocorrência de microcefalia. Com certeza, existem muitas novidades a serem descobertas pelos pesquisadores nos próximos meses e que podem nos ajudar a compreender um pouquinho melhor os mecanismos desta doença.

Enquanto isso, não se esqueçam de fazer a sua parte. Como não existem vacinas, nem tratamentos específicos contra Zika, Dengue e Chikungunya, a melhor estratégia para evitar tais doenças ainda é a prevenção. Por isso, não deixem água parada em pneus, garrafas, latas, pratinhos de planta e não se esqueçam de sempre verificar se a caixa d’água está bem tampada. Além do mais, crie o hábito de passar repelente sempre durante o período do dia, que é o preferido pelo Aedes aegypti para se alimentar do sangue das pessoas.


Referências Bibliográficas para aqueles que desejam aprofundar-se no estudo sobre Zika vírus

Observação: As referências listadas exigem um alto grau de conhecimento para serem compreendidas, por conter linguagem técnica e estar em inglês.

[1] – CHANG, C. et al. The Zika outbreak of the 21st century. Journal of Autoimmunity, p. 1–13, 2016.
[2] – MACNAMARA, F. N. ZIKA VIRUS: A REPORT ON THREE CASES OF HUMAN INFECTION DURING AN EPIDEMIC OF JAUNDICE IN NIGERIA. TRANSACTIONS OF THE ROYAL SOCIETY OF TROPICAL MEDICINE AND HYGIENIE, v. 48, n. 2, p. 139–145, 1954.
[3] – BURKE, R. M. et al. Zika virus infection during pregnancy: what, where, and why? British Journal of General Practice, v. 66, n. 644, p. 122–123, 2016.
[4] – LUPTON, K. Zika virus disease: a public health emergency of international concern. British Journal of Nursing, v. 25, n. 4, p. 199–202, 2016.
[5] – BASARAB, M. et al. Zika virus. Bmj, v. 352, p. 1–7, 2016.
[6] – MARTINES, R. B. et al. Evidence of Zika Virus Infection in Brain and Placental Tissues from Two Congenitally Infected Newborns and Two Fetal Losses — Brazil, 2015. Morbidity and Mortality Weekly Report, v. 65, n. 6, p. 159–160, 2016.
[7] – CALVET, G. et al. Case Report of detection of Zika virus genome in amniotic fluid of affected fetuses: association with microcephaly outbreak in Brazil. Lancet Infectious Diseases, p. 1–8, 2016.
[8] – OLIVEIRA MELO, A. S. et al. Zika virus intrauterine infection causes fetal brain abnormality and microcephaly: Tip of the iceberg? Ultrasound in Obstetrics and Gynecology, v. 47, n. 1, p. 6–7, 2016.
[9] – MLAKAR, J. et al. Zika Virus Associated with Microcephaly. New England Journal of Medicine, v. 374, n. 6, p. 1–8, 2016.
[10] – TANG, H. et al. Zika Virus Infects Human Cortical Neural Progenitors and Attenuates Their Growth. Stem Cell, v. 18, p. 1–4, 2016.
[11] – GARCEZ, P. P. et al. Zika virus impairs growth in human neurospheres and brain organoids. PeerJ Preprints, p. 1–22, 2016.
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3 comentários sobre “A história por trás do Zika vírus

  1. Gostei muito e achei relevante todas as informações, desde o surgimento até os cuidados e a responsabilidade que devemos ter. Acredito que a informação e o conhecimento científico desmascara o achismo e nos remete a posições diferenciadas diante das notícias convergentes.

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